por Dora Lorch
Diante do significativo aumento de ocorrências de casos de abuso, cada vez mais freqüentes na mídia e na vida das pessoas, considero prudente debater e orientar para combater esse mal. Nesse artigo e nas próximas semanas, tratarei do tema nesse espaço para promover a defesa da mulher e da infância.
Infelizmente, situações de agressividade entre casais não são raros. A quantidade de casos de morte de mulheres por parceiros então é maior ainda. É tão grande que nos Estados Unidos já existe uma palavra para esse tipo de crime: “femicídio”, ou seja, assassinato de fêmeas.
Mas há maneiras de prevenir esse tipo de ocorrência: sabendo quais as características que facilitam o abuso e percebendo os sinais de que a relação está em níveis altos de possessividade. Mesmo as crianças e adolescentes costumam indicar que estão sendo vítimas de violência.
PERENE INCONSTÂNCIA: Grimmelshausen
por Rodrigo Gurgel
Rascunho 118
O aventuroso Simplicissimus
Hans Jacob Christoffel von Grimmelshausen
Trad.: Mario Luiz Frungillo
Editora UFPR
664 págs.
O mais grato – e infelizmente raro – prazer do crítico literário é qualificar um livro de genial. Pouco importa que ele não seja o primeiro a reconhecer o valor da obra, admirada por todos os que amam e estudam a literatura do Ocidente, pois lhe basta a satisfação de afirmar a seus poucos leitores: leiam, é genial – O aventuroso Simplicissimus, de Hans Jacob Christoffel von Grimmelshausen, lhes concederá exatamente o que promete em sua epígrafe: “afastar-se da loucura e viver onde a paz mora”.
Guardadas as devidas proporções, Grimmelshausen representa, para o barroco alemão, o que Manuel Antônio de Almeida e seu Memórias de um sargento de milícias significam para o romantismo brasileiro: arejamento, limpeza dos entulhos retóricos, do exagero exótico, da adjetivação excessiva; e predileção pela ironia. Para um tempo rico em poetas – e que teve grandes nomes, como o jesuíta Friedrich Spee, Paul Gerhardt (cujos versos foram musicados por Bach), Angelus Silesius e Andreas Gryphius (que também foi dramaturgo) -, é notável a escolha de Grimmelshausen pela prosa. Anônimo, esse empobrecido descendente de aristocratas tinha perfeita consciência de que seu trabalho ia na contramão da época. Movido por uma inesgotável sofreguidão de narrar, ele desprezou os falsos eruditos, os pretensiosos que produziam versos fúteis, ocos, e pôde, vivendo longe da influência deles, entregar-se ao romance, gênero que consolidou.
Quando soube que nunca mais poderia levantar-se daquela cadeira e que suas pernas já não eram mais pernas, o Palhaço sentiu que o mundo lhe caia ao lado: como viver sem as cambalhotas, as corridas cheias de atropelos, s saltos, as piruetas? Mais: como viver sem o riso que tais estrepolias causavam? Um palhaço sem pernas não consegue ser palhaço.
Mas não, decidiu ele. Não eram as cambalhotas que arrancavam os risos calorosos da platéia: era ele mesmo, sua graça INDENE, a cara pintada, o nariz de borracha, a peruca que o deixava ainda mais careca, a gravata vermelha que espirrava água em cada novo incauto, as suas piadas em cima da hora, as gagues no tempo certo, as caretas ………. As pernas, pensou, eram apenas uma parte do palhaço – mas não eram o palhaço.
Duarte Miguel Barcelos Mendonça
Fórum Madeirense
Comboio com asas,
organizado por António Fournier
Livro dos 500 Anos evoca o mítico “comboio do Monte”
No passado dia 16 de Dezembro foi lançado no Funchal esta antologia de textos com referências ao antigo comboio de cremalheira que outrora transportou milhares de passageiros desde o Pombal até ao Terreiro da Luta. O local escolhido para a apresentação desta obra foi o que menos se esperaria: uma oficina de automóveis. Mas antes que os leitores se assustem, quiçá pensando que na Madeira as coisas regrediram a tal ponto, convém referir que não foi numa oficina qualquer, mas sim numa escolhida devido ao seu simbolismo. Esta cerimónia decorreu na Oficina do Pombal, no local exacto onde outrora se localizavam as oficinas do “comboio do Monte”, situada junto à antiga estação, actualmente um edifício fechado e semi-abandonado, localizado no princípio do Caminho do Comboio.
por Dora Lorch
Alice nos procurou porque o filho chorava muito. Ela era casada há nove anos e o menino tinha seis. Portanto, podemos concluir que não foi um casamento às pressas por causa da gravidez.
— O que você faz quando ele chora? Pega no colo?
— Não, não gosto muito disso.
E prosseguiu:
— Mas, adoro meus filhos. Sou capaz de qualquer coisa por eles.
Eu observava aquele homem imenso sentado em frente à minha mesa, no restaurante. Estava sozinho e parecia certo de que todos o olhavam, tamanha a sua gordura, mal acomodada na cadeira estreita. Mas não dava importância; estava acostumado a ser sempre o mais gordo da sala, o centro das atenções oblíquas.
Quando o garçom chegou trazendo-lhe um prato cheio de salada, me surpreendi: eu esperava o espetáculo feliz daquele homem enorme devorando um pratarrão de massas e carnes, e o punhado de verdes saudáveis não deixava de ser um desconcerto. O gordo e a salada não combinavam.
Ele almoçou vagarosamente, concentrado, olhos fechados em alguns momentos. Comia aquela salada como quem atende a um compromisso inadiável, reunião de família meio chata mas à qual não se pode faltar. Mastigava os verdes como se não acreditasse que era só aquilo. Não sei se demorava tanto a cada garfada porque não conseguia mesmo comer mais rápido ou se, ao contrário, desejava prolongar a refeição o mais que pudesse – aquela sensação de estar comendo algo. Salada, mas algo. Era uma obrigação que precisava ser cumprida até o final.
Aconselhamento (Coaching) literário a pedido do autor (ou do editor)
Consiste no acompanhamento, aconselhamento, sugestões, formas e conteúdos para escritores em produção, nas áreas de ficção, autobiografia, infantojuvenis e acadêmico-universitários, sob solicitação do editor ou do próprio autor. Encontros presenciais e individuais, com periodicidade definida pelo autor. Trabalhos extra-encontros são solicitados. A finalidade deste trabalho é proporcionar autonomia crítica para autores se libertarem do acompanhamento crítico o quanto antes em sua produção. Coordenado por Márcia Lígia Guidin, doutora em Letras pela USP, profª titular de Teoria literária e de Edição de texto. Recomenda-se no máximo 1,5 horas por semana.