‘Mas esse orgulho eu vou levar comigo…’
TweetTeci sozinho a minha fantasia, tarefa catártica a que emprestei todas as horas possíveis, mais para não morrer de desamor do que por qualquer outra razão. Haviamos combinado de desfilar de mãos dadas, o casal mais apaixonado da avenida, e faltou-me o chão quando me disseste, como se não fosse nada, que não estávamos mais juntos. Quero ficar sozinha, falaste, com a mesma voz com que antes juravas que que me amarias para sempre. Mas os nossos planos, perguntei, a nossa vida? A minha vida? – mas apenas levantaste os ombros, achando que valia por resposta.
E então, o que podia ser além de enlouquecer?
À fantasia dediquei um talento que sequer possuo, capricho em que media a distância entre os botões como se daqueles centímetros exatos dependesse a minha vida. O cetim vermelho (sairias de amarelo, já tínhamos decidido), as sapatilhas douradas, o colete em detalhes encarnados, o turbante estilizado: eu era o sultão e serias odalisca, Scherazade na avenida a contar num único desfile a história de mil e uma noites.
Mas decidiste então que não sairias mais pela escola.
A única maneira que encontrei de não desesperar foi a fantasia. A certeza de que estarias na arquibancada, de que me enxergarias desfilando feliz, louco de alegria e samba, e perceberias o engano cometido, quem sabe te arrependesses. Por isso, tanto o esforço, beleza de sultão sem odalisca se construindo caprichosa em meio às minhas lágrimas de saudade. Saio sozinho, pensei, mas saio: se não, estou derrotado.
E saí.
A escola inteira na avenida, frêmito único, trezentas e tantas noites de trabalho desembocando naquele momento, e eu pensando apenas em ti: que me visses, soberano colorido, vencendo o carnaval e a tristeza em que, gélida, me fizeras mergulhar.
Quando me visses, tudo valeria a pena.
Mas não me viste.
Passei reto, lavado em lágrimas que nem sei explicar, a escola inteira como se não existisse, enquanto comias um sanduíche, surda, e trocavas beijos cheios de sabor com teu novo namorado.