“O bom escritor é aquele que elabora cada obra como uma obra única”

PORTAL DA FRANPRESS

Entrevista com David Oscar Vaz
“O bom escritor é aquele que elabora cada obra como uma obra única”

Ler é, sem dúvida alguma, o caminho ideal para os que querem escrever melhor. E o Brasil tem talento de sobra. Quem afirma isso é o escritor David Oscar Vaz, que além de um excelente contista – ele foi jurado do Prêmio Jabuti 2007 nesta categoria – também é mestre em teoria literária pela Universidade de São Paulo (USP). Nesta entrevista David Oscar nos fala sobre o mercado, a educação no Brasil e deixa claro o quanto é prazeroso falar sobre literatura.

Portal Fran Press – Prof. David, como está hoje o mercado literário brasileiro?

David Oscar Vaz – De uns anos para cá a quantidade de editoras cresceu muito. O Brasil tem hoje uma grande quantidade de editoras. Hoje é muito mais fácil publicar um livro hoje do que há vinte anos atrás. Porém, as editoras, na sua maioria, têm muito medo de errar. Elas procuram acertar com as publicações e acabam investindo nos escritores que trazem certeza de sucesso. Basta um livro fazer sucesso no exterior com um assunto de conhecimento massificado que ele certamente vai ser lançado no Brasil com toda a divulgação e marketing que existe no mercado.

PFP – Ou seja, ainda aposta-se pouco no novo autor no Brasil?

DOV – Quem acaba apostando mais nos novos autores é a pequena editora, que tem um espaço de mercado para isso muito maior. As pequenas editoras não têm tanta pressão em acertar ou errar e, por fim, acabam acertando muito com os pequenos autores. Muitos escritores hoje consagrados começaram suas vidas profissionais na pequena editora e hoje disputam os grandes mercados nas grandes editoras. Eu não saberia comentar sobre o aumento das vendas desses escritores, mas é inegável que eles entraram numa vitrine que tem muito mais visibilidade.

PFP – É interessante essa informação do aumento do número de editoras. Quanto mais editoras mais chances eu tenho de ter o meu trabalho publicado. E em relação à qualidade dos trabalhos e dos escritores, tivemos o mesmo crescimento? As pessoas que escrevem estão mais interessadas em publicar os seus trabalhos? O brasileiro tem interesse na literatura?

DOV – Eu vou te responder começando pelo fim. O brasileiro tem muito interesse pela literatura. É curioso, porque eu participei como mediador em algumas bienais de livro e o que eu vejo é que muito gente vai para ouvir a respeito de livro. Isso parece um paradoxo, porque ao mesmo tempo em que temos muita gente interessada em literatura, nós continuamos reclamando que vendemos pouco livro. Eu acho que falta encontrar esse denominador entre esse público muito interessado em literatura e essa baixa venda de livros. É preciso fazer com que esses livros cheguem a esse público. E isso só vai acontecer com bons projetos, projetos do Estado, por exemplo, fazer com que o escritor, o produtor de texto, produtor de cultura, fale diretamente com o seu público, em espaços culturais definidos, bibliotecas… espaços dessa natureza. Em São Paulo isso já está começando a acontecer, mas ainda é algo muito tímido. Um segundo ponto que eu vejo é o incentivo a própria produção cultural literária, assim como você tem o incentivo ao cinema e ao teatro. Mas está começando. Você tem aí o PAC (Plano de Apoio à Cultura) do governo de São Paulo, que tem uma bolsa para a pessoa produzir textos, e outra iniciativa do governo federal também nesse sentido. Ou seja, é preciso dar possibilidades para aquele que produz literatura produzir, como eu já disse, como acontece em outras áreas da cultura nacional.

PFP – É muito interessante esse seu comentário sobre as bienais e sua participação como mediador. Você também, recentemente, foi membro do júri do 49º Prêmio Jabuti de Literatura. E nesses concursos David, você tem sentido também um crescimento, não só na participação do público, mas também na qualidade dos trabalhos inscritos? Esse incentivo que você comenta vai também por esse caminho de termos mais concursos e premiações na área?

DOV – Eu participei como jurado do 49º Prêmio Jabuti na categoria contos e isso foi altamente enriquecedor. Eu tive a oportunidade de conhecer, mesmo descobrir, escritores de diferentes regiões do Brasil que escrevem muito bem. O que eu percebo, até respondendo um pouco mais de uma questão anterior, sobre a qualidade da produção no Brasil é uma qualidade mediana alta. O que significa isso? Nós não temos uma grande estrela como já tivemos em alguns momentos, como Drumond e João Cabral – só para falar em poetas – ou então Guimarães Rosa. Nós temos hoje nenhum medalhão como esses vivo. Temos pessoas muito boas, mas estamos numa mediação, o que eu chamo de uma média muito alta. Desse conjunto vai um grande escritor, mas ainda não temos, hoje exatamente não temos.

PFP – O seu último livro A Urna é um excelente trabalho de contos. Fale deste trabalho e como as pessoas podem adquiri-lo.

DOV – Esse livro veio logo depois do meu primeiro trabalho, que é Resíduos que ganhou o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria revelação em 1997e ficou muito mais fácil publicar o segundo. O livro é encontrado nas grandes redes de livrarias de São Paulo e pela internet.

PFP – Estamos falando então de dois trabalhos de contos. Você se denomina um contista?

DOV – Sim, eu sou um contista, embora atualmente eu esteja escrevendo uma novela, eu me enxergo como um contista por natureza, digamos assim. Agora, o interessante é comentar o quanto de diferença eu enxergo entre o primeiro e o segundo livro. Eu considero um bom escritor, e isso é muito pessoal, aquele que elabora cada obra como uma obra única. O livro Resíduos é muito diferente de A Urna. Quem ler só Resíduos vai ter uma idéia completamente do escritor David Oscar Vaz de quem ler só A Urna. Esse livro tem uma proximidade comigo muito intensa, é onde eu exploro mais as relações pessoais, sejam as relações amorosas, sejam as relações de poder que nós temos, por exemplo, no trabalho e coisas assim. Se eu pudesse apontar alguma coisa poética no meu trabalho, eu diria que eu trabalho muito o encontro de opostos, destinos opostos, pessoas opostas que precisam conviver em algum momento, e isso vai criar um alto grau de dramaticidade. No livro A Urna isso está muito bem colocado, muito bem realizado.

PFP – Quais são os escritores da atualidade que mais te chamam a atenção? Quem é lido hoje pelo escritor David Oscar Vaz?

DOV – Eu acabei de ler um romance muito bom do autor Antonio Torres, Pelo Fundo da Agulha, que completa uma trilogia que começou com a obra Essa Terra. Outros escritores brasileiros da velha guardam, digamos assim, ou recomendaria o Moacir Scliar, do Sul ou Miguel Jorge, um escritor goiano. Dos escritores jovens João Azanelo Carrascosa e Moacir Godói, de São Paulo. Ainda de Goiânia o Heleno Godói. Nós temos vários bons escritores. Quando eu falei no início da entrevista que hoje não temos uma grande estrela, pode ser que elas existem, estão aí, só não foram elevadas ainda a essa categoria.

PFP – Além desse belo trabalho que você tem como escritor profissional que é você também forma as próximas gerações com o seu trabalho acadêmico. Qual é a sua visão sobre esse aluno atualmente, ele tem se dedicado mais aos estudos literários?

DOV – Os alunos que chegam ao ensino superior hoje, especialmente nas universidades privadas, e mesmo nas públicas isso acontecem, ele tem uma carência cultural grande. Essa é uma realidade que temos que trabalhar. O aluno trabalha o dia inteiro e não tem tempo para ler. Agora, eu percebo que a cada ano temos sempre um grupo de alunos muito interessado. Varia de um grupo para outro o número de pessoas, mas sempre há um determinado grupo interessado. E eu tenho a sorte de trabalhar o que eu gosto, que é a receita que eu entendo para ser um bom professor, fazer o que gosta e ser generoso, dar o seu tempo. Essa é a grande prova de amor ao trabalho. Lógico que tudo sempre com muita disciplina, com aulas bem preparadas, retorno à procura desse aluno. Assim que eu trabalho.

PFP – Já que estamos falando em ensino, o Brasil já produziu excelentes profissionais na sua literatura. Quais são os grandes nomes que você destaca e os que você faz questão de trabalhar com os seus alunos?

DOV – Cronologicamente falando eu não posso deixar de citar Padre Vieira. Ele é um grande escritor, que precisa ser lido muito, por todos nós. Outro destaque: Machado de Assis. É o grande mestre do século XIX. Alguma coisa de José de Alencar, não gosto de tudo dele, mas recomendaria alguma coisa, e recomendaria as obras de Machado de Assis. Dó século XX eu vou citar os clássicos, não tem jeito, falamos em inovações, mas sempre voltamos para os clássicos. Os Sertões de Euclides da Cunha é um livro que também precisa ser lido. E por quem eu mais tenho paixão é Guimarães Rosa. Esses são os grandes mestres da literatura brasileira.

PFP – Também somos estudiosos da literatura portuguesa. Estamos vendo o nosso cinema resgatar obras de Eça de Queiroz, como O Primo Basílio. Da literatura portuguesa, que são os nomes que você destacaria?

DOV – Eça de Queiroz, sem dúvida é um deles. Não vamos falar de Camões, que esse já está incorporado em qualquer citação. Antero de Quental é um poeta excepcional. O autor de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco talvez o escritor português que escreve na língua portuguesa em prosa. Outro nome é Fernando Pessoa, gênio todos os aspectos e o melhor poeta português, sem dúvida nenhuma. Modernamente, aí nós temos uma coisa curiosa e eu deixo para os leitores descobrirem escritores contemporâneos excelentes, porque são vários, nem vale a pena citar um ou outro. Portugal mais uma vez está dando as fichas.

PFP – E já que falamos em Portugal, qual a sua opinião sobre a proposta de unificação da língua portuguesa no mundo?

DOV – Eu acho importante você ter uma unificação ortográfica, seria muito importante. O problema é que você tem determinados assuntos e aspectos da língua que são típicos de uma determinada região, de uma determinada linguagem regional, e é complicado você fazer essa unificação. Acho isso importante, porém, eu preservo muito o falar particular de cada região, veja o exemplo do Brasil, um país enorme que tem várias maneiras de falar. Eu acho que nós temos que encontrar um denominador, que não precisa necessariamente ser uma padronização, há espaços para se manter as particularidades. O mais importante é que os escritores e os leitores da língua portuguesa se encontrem, isso é que é importante, e os escritores fazem melhor que qualquer acordo internacional. Camões fizeram mais pela difusão da língua portuguesa que qualquer acordo internacional.

PFP – Parte dessa discussão acontece também pela questão do estrangeirismo na língua portuguesa. Como você vê essa questão da invasão do estrangeirismo na língua portuguesa?

DOV – As apropriações lingüísticas são comuns em toda as línguas, isso é natural. Se você não tem uma palavra em português para designar determinado conceito, você busca no grego, no inglês, mas não vai ficar sem falar. O problema é que nós pegamos uma série de termos que nós temos o equivalente em português sem a necessidade de se empregar o estrangeirismo. Se você tem o português “entrega em domicílio” porque usarmos o inglês “delivery”. Isso sim é uma subserviência lingüística e eu sou contra esse tipo de coisa. Quando você não tem um termo lingüístico em português, aí eu não vejo nenhum problema na importação.

PFP – De um modo geral, o brasileiro tem vocação para a literatura. Somos um povo que escreve bem?

DOV – Eu diria que o brasileiro é um povo que tem uma vocação muito forte para a imaginação, mas ele tem pouca disciplina, e para ser um escritor você precisa ter disciplina, você precisa ser treinado. Camões definia muito bem essa questão da engenhosidade e da técnica como partes fundamentais da estrutura de um escritor. Você precisa ler muito, se dedicar. É como um jogador de futebol, sem treino não há resultado positivo. Nós temos sim uma vocação poética, ficcional, o que nos atrapalha é aquele excesso de preguiça do Macunaíma. Eu percebo isso às vezes.

PFP – E a troca David, quando falamos na influência absoluta de Portugal sobre a nossa literatura. O Brasil troca bem suas informações com a sua nação-mãe, tanto no campo literário como o acadêmico?

DOV – Já fazemos isso, ainda não de uma forma ideal. De uns dois anos para cá começamos a perceber um grande interesse do Brasil por escritores portugueses, mas é algo muito recente.

PFP – E as editoras de lá, tem demonstrado interesse pelos nossos escritores?

DOV – É curioso. Existe um interesse relativo. Nós temos uma veia de contistas que teve uma produção muito intensa. Portugal vê os contos não como uma grande literatura, ninguém chega e diz sou contista, todos dizem sou um escritor. E aqui no Brasil a produção de contos ainda é muito intensa. Eu vejo concursos como o da Brasil Telecom, que unificou a participação de escritores brasileiros e portugueses que possibilitou um intercâmbio maior.

PFP – Que orientação você dá aos alunos que estão começando na literatura?

DOV – Primeiro eu diria que tenham muito orgulho de suas influências. As pessoas querem ser originais e acham que isso é escrever do nada. Você escreve de um passado de leituras e de influências que você sofre. Portanto, tenha orgulho delas. E depois livre-se delas, se não conseguir não tem importância. O mais importante é entender que não existe escritor sem ser um leitor. Eu não sei dizer que alguém pode ser um pintor sem ver muitos quadros, mas com certeza eu posso dizer que não há escritor sem leitura. Leiam muito e com prazer.




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