Fabricando Leitores

@Antônio Abellán

por Ferréz

Cheguei no Sarau, dessa vez era o da Vila Fundão, um sarau que rola toda quinta-feira a noite numa comunidade dentro do Capão Redondo, um bar que aceitou uma vez por semana ser palco para poetas, músicos e escritores.

Já perdi o número de vezes que fui a saraus, mas lembro bem quando não existiam, e eu tinha que ficar indo a shows de rap, a campanhas políticas e até em quermesses e aniversários de ruas.

Em todos esses lugares, ou outros onde cabia um cara no palco falando um texto, lá estava eu, não importa se fosse de ônibus, perua, ou mesmo a pé, a palavra chegava de alguma forma.

O Sarau estava lotado, era lançamento de um cd de rap que participei com uma poesia, o grupo queria que eu falasse um texto, no caso o poema que fiz para o cd.

O Sarau da Fundão fica numa esquina, dentro da comunidade, o espaço é restrito e muito tumultuado, carros dividem a calçada com as pessoas, muita gente dispersa, muita gente do lado de fora, muita conversa paralela e o grupo cantando.

Eu parei do lado de fora e pensei, se com música já não dá para ouvir nada imagina na hora que eu for ler o texto?

Então chegou minha vez, coloquei o microfone bem próximo da boca e falei em alto tom:

– Convocação Geral, oportunidade única de ouvir um escritor lendo e tem mais ainda está vivo, num pais onde só tem valor quem é ator de novela ou artista falecido, é um milagre que está para acontecer perante vocês, um autor vivo, aqui e agora, com um texto contundente, um texto único, feito para iguais de sofrimento, iguais que suaram muito para fazer um cd, que perderam a chance de passar por esse mundo e ficarem calados como a maioria da população, você que está ai fora, faz favor, você que está falando dos seus problemas, faz favor, você que está bebendo, faz favor, vai falar agora um escritor.

Bom, foi lindo, todo mundo estava dentro do sarau e todos preparados para ouvir o texto.

Resultado: sua moral é você quem faz.

 

Ferréz, paulistano de 32 anos, começou a escrever aos 12 anos de idade, acumulando contos, versos, poesias e letras de música. Antes de se dedicar exclusivamente à escrita, trabalhou como balconista, auxiliar – geral e arquivista. Seu primeiro livro Fortaleza da Desilusão foi lançado em 1997 (edição do autor). Mas foi com Capão pecado. Objetiva, 2005, que se firmou como um dos melhores escritores da sua geração. Também é autor Cronista de um tempo ruim. Selo Povo, 2009, Os Inimigos não mandam flores com Alexandre de Mayo. Ediouro, 2006, Manual practico del odio. El Aleph, 2006, Ninguém é inocente em São Paulo. Objetiva, 2006, Amanhecer Esmeralda. Objetiva, 2005, Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Agir, 2005, e Manual prático do ódio. Objetiva, 2003




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