Correio do Povo / Data: 13/12/2004
O escritor e jornalista Luís Antônio Giron lança Até nunca mais por enquanto (editora Record).
O livro é composto por contos e marcam a primeira incursão pela narrativa curta de Giron. O autor lançou mão de uma linguagem vertiginosa e dos mais variados recursos da intertextualidade para dar vida a tramas nas quais seus personagens estão sempre caindo em precipícios, amando sem ser amados e, invariavelmente, sendo assediados pelo horror e pelo medo da linguagem. Giron dialoga com o trabalho de Haroldo de Campos, Sousândre, Campos de Carvalho, Hilda Hilst e com o inclassificável Rosário Fusco. Sua narrativa é curta com uso de metáfora supra-realista, da metonímia dos concretos e da desconstrução pós-moderna. O próprio título da obra é uma charada para o leitor. ‘A expressão nasce da ‘boca’ dos personagens e pode funcionar como um mote.
Zero Hora / Data: 13/12/2004
O jornalista Luís Antônio Giron lança livro de contos
Imagine-se um copo d´água, só água, sem o copo. Assim – o líquido respeita os contornos de um copo sem que o copo de fato exista. Desse jeito, cumprindo uma figuração improvável, que gravita nos domínios do delirante e que desafia o senso comum, o escritor e jornalista Luís Antônio Giron compõe seu mais recente livro, Até nunca mais por enquanto (Record, 192 páginas). Recusando-se à narrativa de extração realista, aquela tecida em torno de um enredo que segue as determinações consagradas de causa-efeito e de início-meio-fim e que tenta mimetizar a realidade no que ela poderia ter sido ou que poderia vir a ser, Giron se embrenha num terreno escarpado e resvaladiço, matéria da qual se faz não mais o sonho, mas o torvelinho demoníaco do pesadelo.
Reunião de contos que requer certa disposição anímica e intelectual para ser decifrada, escrito para, sem nenhum pejo, espetar a comodidade do leitor, Até nunca mais por enquanto se assenta numa prosa em que a linguagem vira, de uma vez por todas, conteúdo e continente, unidades de significação que se subtraem de seus valores corriqueiros – um copo d´água sustentado apenas pela vocação que a água tem de se conformar em copo. De flerte como o barroco, em contorções gongóricas, o livro é pura – puríssima – invenção. Tudo gravitando nessa esfera tão ágil quanto imprecisa, mescla de erudição léxica e pulverização de paradigmas sintáticos.
por Cláudia Nina
Jornal do Brasil / Data: 11/12/2004
Jornalista não parece nada interessado na realidade
Palavras amontoadas, doces ausências de sentido. Fábulas mal escritas. Memórias de um insano pobre em capítulos. Essas são algumas das muitas definições encontradas dispersas em Até nunca mais por enquanto, de Luiz Antônio Giron, na tentativa de descrever a natureza deste livro estranhíssimo, em que o autor escreve como se a todo o instante estivesse revisando um palimpsesto: fazendo e desfazendo, apagando umas frases e mantendo outras de maneira que um texto sobreposto ao outro tenha – ou não, o que é mais freqüente – algum sentido. Mas sentido não é propriamente o que se pretende neste insólito volume de contos. Depois de escrever ficção, crônicas, reportagens e ensaios, o jornalista e crítico de música gaúcho, especializado na ópera e no teatro do século 19, não parece estar muito interessado em realidade. Pelo menos nos termos mais banais do que se chama de representação. Seu compromisso é com uma realidade paralela que se constrói quando a tranca que fecha o fluxo da consciência se abre. É quando surge um discurso desarticulado, sofisticado porém, tramado por várias vozes em tempos diversos e desconexos. Uma espécie de linguagem vertiginosa que pertence, não ao sonho, mas aos pesadelos.
por José Castello
Valor Econômico / Data: 10/12/2004
Giron mostra que o ato de criar não é fantasioso, mas, sim, o encontro de novas maneiras de avançar sobre o real e abocanhá-lo
O contato com a realidade, sua captação, não pode mais seguir os moldes da grande literatura do século 19. Isso não significa que a realidade tenha deixado de contar, ou que ela se tenha tomado inacessível. Mas, sim, que hoje a observamos numa ótica mais complexa,que exige instrumentos mais e mais sofisticados. O título do livro de Luis Antonio Giron , Até Nunca Mais Por Enquanto (Editora Record), um paradoxo em si, é uma espécie de síntese do espírito que vigora em suas narrativas. A frase é citada por vários personagens, tomando-se um elo secreto – exposto na capa de modo quase agressivo – a ligar sujeitos e situações que, na aparência, se desconhecem. Há no livro de Giron um caráter de pesadelo, uma vez que a instabilidade e mesmo a incoerência que vigoram na realidade são apresentadas sem qualquer atenuante. O mundo real não é assim mesmo? Estamos em casa, ligamos a TV – e surge um homem-bomba no Oriente Médio. Acessamos distraidamente a internet – e somos atacados por um vírus que se disfarça em mensagem de amor. Nada de caveiras, fantasmas ou monstros, como no ingênuo romance “de terror”.