Correio da Bahia / Data: 19/2/2005
Luís Antônio Giron cria narrativas baseadas em seus próprios pesadelos
Em seu novo livro, `Até nunca mais por enquanto´, o gaúcho Luís Antônio Giron rompe com o que chama de `realismo urbanóide´ e fala de suas aflições em textos curtos. O jornalista e escritor gaúcho Luís Antônio Giron concebeu seu primeiro livro de narrativas curtas com o claro propósito de levar o leitor ao inferno. Da falta de identidade, frise-se. E o mais curioso é que ele consegue seu intento. Até nunca mais por enquanto, lançado pela Record, é uma obra estranha e deve incomodar quem está acostumado a consumir ficções realistas. Isto porque o autor optou pelo uso da linguagem como personagem dramático das histórias baseadas em seus próprios pesadelos. O resultado são narrativas que subvertem a compreensão como Musa imunda, historieta que abre o volume. Aliás, os títulos dos contos são um capítulo à parte. Um após o outro, os tormentos de Giron atendem por Avestruz no vergel, Tião, corvos e capeplufos, Execrável belvilacqua ou eternos chefes, Nimbado de cloro, Poer-luna.
Paulo Bentancur
O Globo / Data: 4/2/2005
O frisson já começa no sumário, “Tábua de pesadelos”. Podia ser pretensão do autor, ou exagero na forma e antecipação do que poderia vir a acontecer, o que retiraria a força do conjunto. Nada disso. As vinte histórias que seguem à epígrafe — também tenebrosa — mostram que Giron parte do básico (não tem medo de escrever, e isso significa muita coisa) para chegar ao máximo: deixar o leitor sem pai nem mãe. E com um livro nas mãos trêmulas. Após a leitura, claro. Antes, começa com a dedicatória desconcertante: “Para as leitoras mais vorazes, as gavetas”. Ironia com a pouca leitura que há no país, em que é normal abandonar um livro numa gaveta? Provavelmente não. Referência ao processo do próprio Giron? Parece que é isso.