Chuva Obliqua por David Oscar Vaz

por David Oscar Vaz

Germina – Revista de Literatura e Arte – 7/5/2007

Quando subia as escadarias da faculdade, e a alma ia expandida, ansioso com o evento que se aproximava, minhas pernas eram de um animal montês, e já estava quase no topo, quando parei de súbito atrapalhando a pressa dos que agora tinham um outro obstáculo a vencer além dos degraus, e parei porque vi descendo na minha direção a criatura mais improvável que eu poderia encontrar, ao menos fora do sonho. Com tantas pessoas no mundo e fui encontrar justamente esta! A impossível. Vi que era eu que descia as escadas; eu mesmo, tão metido em mim que não me vi subindo. E esta era a única diferença entre nós, os mesmos traços, a mesma idade, a mesma maneira de estar e de olhar solitário quando solitário estou entre as pessoas, e a única diferença era esta: eu que descia, descia sem nenhuma consciência de mim que subia consciente do eu que descia inconsciente de mim. Pois eu me vi passando por mim, e o passante me olhou, mas como quem olho um cartaz sem atrativo que alguém fixou numa parede pouco útil para se colocar cartazes. Eu descia e nem detive meus passos e nem me voltei para ver que, atrapalhando as pessoas, lá estava eu num degrau da escada olhando-me ir embora. Nesse instante, senti que devia descer para acompanhar aquele que lá ia tão desprendido de mim, mas uma mão me deteve, me puxou pelo braço me chamando ao compromisso. Era o Esteves; o gentil mestre de pedagogia, dono de uma pequena cultura e de um enorme otimismo, que sorria ignorante ao que se passava comigo, queria porque queria me acompanhar, mas quem acompanharia a mim que há pouco desci as escadas? Ninguém. Lá ia eu só já me aproximando da saída, naquele instante em que uma aluna me pegou de papo na porta, e eu não podia nem queria agora falar não sei de que livro; precisava sair. Não queria ser indelicado com ela, tão bonita, tão involuntariamente sedutora, mas meu coração estava em outra parte, tinha ainda que pegar um ônibus e um metrô, e não podia chegar atrasado ao meu encontro com Irene.

- Você está nervoso. – disse-me o Esteves, agora sorrindo dos meus modos.

- Não é todo dia que se lança um livro – tentei me justificar.

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