O governador acaba de baixar uma nova lei férrea: fica proibida a venda de quentão e vinho quente durante as quermesses de São João nas escolas. Porque, segundo o dignitário, vinho quente e quentão são bebidas alcoólicas – e, portanto, inadequadas ao consumo de menores de idade. Trata-se de mais uma medida moralizadora de alta eficácia qie o governo derrama sobre nossas mentes insanas. Depois do saquinho de cocô de cachorro, da lei seca e da lei antifumo, nada mais oportuno que proibir que nossas crianças bebam álccol em pátios de escola.
E é uma medida verdadeiramente histórica. Afinal, desde a Idade Média, em Portugal, onde essa bandalheira começou, os pequenos bebiam vinho e bagaceira quente, enquanto dançavam e cantavam em torno da fogueira para celebrar São João. Com a descoberta do Brasil, o gentios introduzium a maldita da cachaça, que, associada a insidiosas especiarias do Oriente – cravo, canela, açúcar –, deu origem à infame beberagem do quentão. Quantas gerações não foram conspurcadas e precocemente extintas por conta da bebida que moveu tantas quadrilhas e coreografias idiotas do folclore luso-brasileiro!