do blog Luís Antônio Giron
Há coisas que só paulistano sabe fazer. Um forasteiro pode aprender algumas delas, mas há outras que são inimitáveis. O paulistano de verdade é refratário a influências externas. Observo isso o tempo todo.Esta cidade abriga gente de todas as partes do Brasil e do mundo. Moro na cidade há quase trinta anos, aqui fui bem recebido, trabalhei, casei e tive filhos aqui. Me considero paulistano. Só que pertenço à categoria dos paulistanos forasteiros – e de uma subdivisão ainda menor, a dos paulistanos sul-rio-grandenses. Tanto que já tenho até uma lápide preparada, para quando for enterrado no Cemitério da Goiabeira: “Aqui jaz L.A. Giron., jornalista gaúcho ‘erradicado’ em São Paulo”.
Sinto que ainda existe a distinção entre o paulistano de fato e os extracomunitários. Talvez a diferença tenha se dissipado com o tempo, até porque a partir dos anos 1920 os imigrantes tomaram a cidade e alteraram o seu DNA. Esses anos todos, peguei o sotaque e assimilei hábitos locais. Ser paulistano, enfim, é um processo. Mas sinto que existe uma fronteira que não vou poder atravessar. Faz parte dos traços da identidade do cidadão local que jamais irei incorporar totalmente.
Por Marta Barcellos para Valor Econômico de 12/09/2008
Um autor novo dificilmente conseguiria hoje fazer um “estilo Dalton Trevisan”
Em 1926, um jovem alemão, radicado no México, publicava o seu primeiro livro disposto a jamais dar um autógrafo ou sequer revelar sua identidade. O pseudônimo era usado com alguma freqüência naqueles tempos, mas o enigmático escritor abusou: sob a alcunha de B. Traven construiu uma obra de prestígio, com mais de uma dezena de títulos, teve um de seus romances – O tesouro de Sierra Madre – filmado por John Huston e conseguiu manter-se no mais absoluto anonimato por toda a vida. Nos dias atuais, isso seria impossível. Qualquer editor ou agente literário com um pé na realidade do mercado iria dissuadir um candidato a B. Traven de seguir o caminho da reclusão ou do anonimato, por maior que fosse o seu talento.