A oitava maravilha

do blog Luís Antônio Giron

Os paulistanos andam meio chateados com o fato de São Paulo não ter um monumento para figurar entre as Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Pior, o Cristo Redentor ganhou a eleição e agora figura entre as maiores atrações do planeta. Mas será que haveria por aqui um rival para a beleza art-déco do Cristo – sem falar do impacto da paisagem que envolve a estátua carioca? .

A mentalidade daqui sempre foi ignorar tanto os monumentos como a natureza. Existe o prazer dominante de desprezar ornamentos. Agora a feiúra virou até atração turística. O grupo Parlapatões lançou na semana passada o passeio O Pior de São Paulo. O ônibus da excursão sai da Praça Roosevelt nos fins de semana. Durante seis horas, os atores da trupe e turistas percorrem os pontos mais horrorosos de uma cidade rica nesse tipo de desatração. Não há roteiro definido. O negócio é improvisar e espantar com novos sustos. Os Parlapatões copiam a idéia de um comediante de Madri. A capital espanhola é repleta de lugares lindos é só uma graça a mais. Em São Paulo, o desafio seria o contrário: encontrar pontos bonitos. Tarefa difícil, talvez, mas não impossível.

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Crianças quase-adultas

do blog Luís Antônio Giron

São tantas as mudanças que chega o dia em que o arcaico vira atual. Até início do século 20 as crianças eram educadas como pequenos adultos. Os meninos se vestiam com terno e gravata. As meninas pareciam as avós em que a longo prazo se transformariam – e de fato se transformaram em nossas avós. As crianças já estavam preparadas para o mundo real. Depois, a infância se alongou a ponto de todo mundo ter virado um pouco pueril. Mas agora as coisas mudaram. As crianças estãovirando, trajando e consumindo como adultas.

Basta passear agora mesmo por algum shopping center. A gente vê hordas de adultos miniaturizados, a circular em bandos. São meninos e meninas de 5 a 10 anos que andam desacompanhados e se comportam como um sindicato. São os chamados tweens, a tribo urbana que ganhou definição há três anos, com o musical de televisão High School Musical. O termo vem do inglês “between” e define quem passa pela transição entre a infância e a adolescência. Os tweens invadiram os mutliplexes para ver HSM3, o derradeiro musical que retrata uma turma de meninos cantores e dançarinos, chefiados pelo vênus azulado Zac Efron.

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Dia mundial sem nada

do blog Luís Antônio Giron

O Dia Mundial sem Carro, a acontecer no sábado 22, é uma idéia estimulante. Claro que pretendo aderir ao movimento, até porque não faço outra coisa que sair a pé aos sábados, escarafunchando os recônditos desta megalópole frenética, equilibrando-me entre as calçadas e as ruas, em busca de fatos inusitados. Virar um pedestre privilegiado me anima, até certo ponto.

No último domingo, assisiti na avenida Paulista a um atropelamento e constatei a banalidade da morte e do perigo, a frieza com que os outros passantes trataram o fato: a curiosidade mórbida ocupou o lugar da preocupação ou da solidareidade. Foi assustador. Bom saber que no próximo fim de semana poderei andar de modo mais livre… isso se as bicicletas não tomarem simplesmente o espaço dos carros e São Paulo virar a Pequim dos anos 70 por um dia. Talvez ser atropelado por uma bike seja mais ecologicamente correto do que por um veículo motorizado. Mas será que bicicletas solucionam o problema?

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História e mancha

do blog do Luís Antônio Giron

Desde 1970, já vi surgir e morrer cinco ou seis idéias de cidades na área que conheci como São Paulo. Ao passear pela cidade sinto como se caminhasse em múltiplos níveis. Essas camadas não são visíveis a olho nu, e sim pela memória. Estou agora no Centro. Faz algum tempo que não ando por aqui, então tudo sabe a novidade. O Centro dos anos 70 e 80 parece não existir mais.

Isso é só aparência, pois posso distinguir vestígios de projetos de cidade ainda mais remotos. Passo a andar no sentido anti-horário. No Bexiga a gente ainda pode ouvir o bate-estaca do punk e do pós-punk, em locais que sediaram casas noturnas “radicais”, como Madame Satã e Carbono 14, lembra? Consigo captar o nascimento do pólo pós-industrial dos serviços durante a década de 60 nas velhas galerias das ruas 24 de Março e Augusta. A metrópole da indústria dos anos 30 aos 50, quando São Paulo virou a “locomotiva do Brasil”, mora nos prédios Martinelli, Banespa e Copan. A Paulicéia Desvariada da Semana de Arte Moderna de 1922 encontra-se congelada na casa de Mário de Andrade, na rua Lopes Chaves, e no sobradinho kitsch de Oswald de Andrade na Consolação (que nos anos 80 sediou o Spazio Pirandello e agora está em ruínas). Eis a capital do café vibrando pelos viadutos do Chá e Santa Ifigênia e no famoso “triângulo” das ruas XV de Novembro, São Bento e Direita. As repúblicas de estudante do Largo de São Francisco e as mulheres de mantilha já não existem mais, mas a região da Igreja de São Francisco mantém o mapa dos antigos sobrados. e as vidas que os habitaram. Por fim, a origem: a São Paulo dos jesuítas e dos bandeirantes ainda pode ser espiada no Pátio do Colégio e no Mosteiro de São Bento.

Em alta velociade, viajei pelo ontem neste futuro.

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