No coração do império

por Jerônimo Teixeira
Veja / Data: 19/11/2008

Uma biografia da condessa de Barral – a grande paixão de dom Pedro II – revela uma mulher avançada demais para os padrões provincianos do Brasil do século XIX

Com sua fina educação francesa, Luisa Margarida Portugal e Barros, a condessa de Barral, horrorizou-se com as maneiras toscas de um conterrâneo que visitava a Europa. Ele tinha as unhas sujas, comia com a faca e cultivava o desagradável hábito de bater nas costas dos interlocutores. “O senhor Alcântara tem dois defeitos insuportáveis: é egoísta como ninguém e cabeçudo como todas as mulas do mundo”, anotava a condessa em seu diário de 1871. Referia-se a Pedro de Alcântara, o imperador dom Pedro II, então em sua primeira excursão européia. Luisa brigou muito com ele: achava que sua figura simplória, sempre com o mesmo jaquetão preto, representava mal o Brasil. Ela gozava da intimidade necessária para fazer críticas tão pessoais. Fora dama de honra da princesa Francisca, irmã de dom Pedro, e aia das filhas deste, Isabel e Leopoldina. Também era a mais querida amiga do imperador – e as palavras “amiga”, “amigo”, “amizade”, recorrentes na correspondência entre os dois, são eufemismos: Luisa foi amante de dom Pedro II. Reconstituída com muita graça na biografia ‘Condessa de Barral – A Paixão do Imperador’, de Mary Del Priore, a vida extraordinária de Luisa permite um vislumbre único do que se passava no recesso das alcovas reais. A historiadora buscou fazer um retrato humano, despido da aura reverencial que cerca seus personagens. “Meu objetivo foi mostrar o imperador de pijama e a condessa de bobes na cabeça”, brinca Mary, autora também de ‘O Príncipe Maldito’, biografia de Pedro Augusto, neto de dom Pedro II.

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Amigos ocultos

do blog Luís Antônio Giron

Fazer amigos que você não vê e nem verá é uma banalidade na internet. Mas a desmaterialização das relações humanas não é invenção deste tempo. Jà no meu, antes da popularizaçáo da “chateação” por laptops e celulares, o fenômeno já ocorria. E se deu comigo, por culpa do arcaico telefone fixo.

Aí por 1993 um poeta chamado Vicente Cechelero se apresentou a mim num telefonema. Ele me disse que havia obtido meu número de um amigo comum, o Fernando Dantas, colega da Letras-USP. Em um minuto, Vicente e eu viramos amigos de infância. E as ligações se tornaram freqüentes e longas. Noites adentro, contava a suas aventuras literárias. Quem disse que o “bit torrent” surgiu agora não conheceu o Vicente: ele era um jorro instantâneo e infinito de informação, sugestões de leitura e ditos impopulares.

Nas conversas, conheci sua personalidade: nasceu em Joinville, Santa Catarina. de onde “fugiu” em 1969, para se radicar na Paulicéia, pois brigara com meio mundinho literário sulista. Publicou dois livros. Era o modelo do bardo maldito, que eu não imaginava ainda existir. Declamava e cantava… música sertaneja. Entre as lições que me deixou, a mais comovente foi sobre o assunto. “Amo essas toadas”, disse. “Não as despreze. Porque ouvi-las é como andar por um prado cheio de flores silvestres. Há uma beleza singela nessa música.”

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A roupa nova do imperador

por Bolívar Torres
Jornal do Brasil / Data: 23/11/2008

Livro sobre condessa de Barral mostra como a amante influenciava dom Pedro II até no vestir

Erudita, cosmopolita e liberal, Luisa Margarida Portugal e Barros, a condessa de Barral, destoou das mulheres de seu tempo. Filha de um diplomata que lhe garantiu educação privilegiada e bicultural, sustentava posições avançadas para o século 19: era abolicionista convicta e escolheu seu próprio marido. Acima de tudo, representou a velha máxima de que por trás de todo grande homem há uma grande mulher: ela foi a maior paixão de dom Pedro II, influenciando o imperador até o fim de sua vida. A trajetória de Luisa Margarida e de seu amante ilustre ganha uma nova perspectiva em Condessa de Barral, da historiadora Mary Del Priore, que joga luz sobre a vida íntima da realeza brasileira.

– A imagem de dom Pedro II no livro não é a do político, do estadista, e sim a de um homem em sua intimidade – observa Mary. – Ao contrário do que muitos historiadores apresentam, era um indivíduo tímido e reservado. Sempre digo que, para o imperador, a condessa de Barral foi uma janela para o mundo. Ela conhecia na prática tudo aquilo que ele lia em livros. Tudo o que ele gostaria de ver, sejam cidades ou museus, ela já visitara na Europa.

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