Ciclo de vingança

do blog Luís Antônio Giron
terça-feira, 20 de outubro de 2009

Remonta ao tempo do onça o hábito de a torcida vaiar e agredir jogadores e técnicos de futebol. Começou com a primeira derrota, o frango primordial. O onça foi esquecido, embora a prática bárbara continue popular. Os tempos mudam uma hora destas. E mudaram para o Gilmar.

Ele é chefe de uma torcida de um tradicional clube de futebol da capital. Pode ser chamado de fanático. Seu lado positivo é organizar excursões quando o time joga fora, conferir os treinos, pintar faixas. Sabe conciliar as atividades com a de caixa de banco. O lado negativo está em não suportar quando o time perde uma partida. Toda vez que isso acontece, chama seu bando de choque e dá um jeito de espezinhar ou agredir a equipe.

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Olhos cheios de azul

Henrique Schneider

Ainda que lhe sobrasse nas pernas o peso dos sessenta anos, era de garoto a excitação que lhe movia os caminhos da pressa. O mar, haviam lhe contado, era algo que não tinha explicação – e a ele, que ganhara a vida inteira tarrafeando rios no fainoso ofício da pesca, parecia que faltava algo à frase. As coisas todas têm explicação, pensava ele, cartesiano sem sabê-lo – inclusive o mar.

Mas agora que o levavam para conhecer esta massa líquida enorme e salgada, ele lembrava das águas doces pescadas nestes tantos anos e de suas margens sempre visíveis, e era um estremecimento que também não se explicava. Era ansiedade e não era. Era emoção, mas não era. Talvez, corrigiu-se ele enquanto já iam chegando nem todas as coisas precisem de explicação.

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Papagaio Ilegal

do blog Luís Antônio Giron
terça-feira, 22 de setembro de 2009

Outro dia a Polícia Civil apreendeu na Zona Norte 230 aves silvestres. Os pássaros estavam presos em 30 gaiolas, coitados: canários, sabiás, cardeais e papagaios. Antigamente esses bichos eram de estimação, faziam parte do cotidiano das nossas casas. Hoje foram promovidos a animais silvestres raro, protegidos – e, por isso, cobiçados pelos traficantes. É bizarra a dança da civilização. Nossas mães penduravam gaiolas na cozinha; agora os engaiolados se uniram contra os lares. Se alguém quer criar em casa um animal silvestre,deve se registrar no Ibama – ou entrar para a ilegalidade.

O que escrevi acima serve como um belo bico de cera para o assunto desta crônica: quase cometi um crime por adotar um papagaio… de nome Rigoletto. Tudo se deu há poucas semanas, ao visitar uns primos no interior. Na volta, eles queriam me presentear com um papagaio, neto do Louro, que reina aboluto por lá há 37 anos. Não seria uma proposta tentadora, caso o jovem espécime não se revelasse um prodígio. Ainda me espanto com ele: o bicho assobia, dança, canta, pensa, fala, discute. Por ser levemente corcunda, recebeu o nome do bobo-da-corte de Mântua que intitula a ópera de Giuseppe Verdi.

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Engrenagem

Henrique Schneider

Desde que começara na repartição, anos atrás, Zigmar não tinha chefe. Isso não o impedia de cumprir suas tarefas cotidianas, que consistiam, basicamente, em recolher o lixo nas diversas salas, juntá-lo em sacos maiores e depositá-los nas lixeiras existentes em frente ao prédio. A falta de chefe não lhe atrapalhava o trabalho.

Mas quando soube que ganharia um chefe, Zigmar exultou. De uma vez por todas, pensou, pareciam haver reconhecido a importância do setor. Alguém a fiscalizar, supervisionar: certamente o trabalho renderia mais e melhor.

Quando o chefe enfim chegou, Zigmar não conseguiu falar com ele de imediato. O homem parecia bem ocupado, usando gravata e tudo o mais, e apenas disse-lhe que aguardasse o assessor que estava sendo contratado. As questões de Zigmar deveriam ser tratadas diretamente com o assessor, enfatizou, porque não teria tempo para resolver tudo. Disse isso e correu para uma reunião, enquanto Zigmar pensava, cada vez mais, que suas funções estavam ficando importantes. Um chefe – e ocupado, ainda por cima!

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Futebol e drama

do blog Luís Antônio Giron
quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sou aquele torcedor que abaixa o som da televisão, liga o radinho e passa o fim de semana grudado nas notícias de seu time. Como palmeirense, meus últimos domingos têm sido repletos de emoções negativas: raiva, inveja, vontade de dar um coco no Marcos e um cascudo no Luxemburgo. Não vou apoiar os bárbaros que agrediram o treinador, mas consigo entendê-los. Onde já se viu jogar a toalha antes de terminar o campeonato?. E o desespero da equipe, capiteneada pelo São Marcos, o mártir, o louco? Enquanto isso, o São Paulo segue invencível e o Grêmio cola, na marcação agressiva e fria. Ficamos para trás, e lá se foi mais uma vez o meu domingo..

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Notícias de jornal

Henrique Schneider

Absorto na leitura aborrecida do jornal, o velho enxotava sem perceber os pombos que, na expectativa inútil de alguns grãos de milho, se aproximavam do banco de praça em que este sentava-se, sozinho, todas as manhãs. Pouco prestava atenção às notícias, o velho, cingindo seu interesse às altas do preços dos remédios e das comidas, seus poucos prazeres e necessidades. No mais, apenas passava o tempo ao sol, aquecendo as juntas antes de voltar ao quartinho de pensão em que, há tantos anos, gastava seus dias.

Quando o desconhecido sentou-se placidamente ao seu lado, deu-lhe uma breve olhada e pareceu perceber naquele rosto alguma lembrança, mas logo voltou à leitura. O desconhecido, então, espichou o pescoço, buscando alcançar com os olhos as notícias que moravam no jornal do velho. Este, incomodado, afastou-se uns centímetros no banco e fechou um pouco o jornal, de modo a dificultar a leitura a qualquer olhar que não fosse o seu. Mas o outro não percebeu este movimento.

“Viu a notícia do homem encontrado morto?” – perguntou.

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Vista para o mar

do blog Luís Antônio Giron
sábado, 22 de agosto de 2009

Quem disse que São Paulo não tem praia? Basta dar uma olhada na rua nesta sexta-feira por volta das seis da tarde. As “prainhas” se espalham por todos os quadrantes da metrópole, do centro à periferia, invadindo também os bairros mais ricos. Assim são chamados os bares com mesas nas calçadas. Ali o pessoal se reúne, bebe cerveja, faz barulho e joga conversa fora. É um espaço cenográfico que simula areia e mar. Só não há nada disso por mera contingência.

Vamos nadar pela História. A colonização do Brasil começou na praia. Martim Afonso de Sousa fundou a vila de São Vicente em 1532, a primeira povoação brasileira. São Paulo de Piratininga foi criada 22 anos depois, num planalto magnífico próximo ao oceano. No início, não passava de um reduto indígena gerenciado por jesuítas. Para os padres, tratava-se do local mais aprazível do planeta – que eles conheciam bem, pois percorriam os continentes conhecidos O clima era ameno, as montanhas suaves, rios e vegetação abundantes. E ficava num ponto estratégico, entre o mar e o interior desconhecido do Brasil. Por isso, os bandeirantes apelidaram São Paulo de “a boca do sertão”. Pela boca se iniciou a exploração do interior. Isso deu ao reduto, mais tarde vila e, por fim, cidade, uma carcterística: a cabeça bifronte, contemplando a um só tempo o sertão com espírito de aventura, e o mar, com nostalgia do espaço abandonado.

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A casa dos avós

Henrique Schneider

Na casa dos avós, as manhãs eram sempre amarelas e plácidas, porque lá não existia mau tempo. Os cheiros todos tinham dono: as uvas fervilhando vinho e doces na parreirinha ao lado da casa, as galinhas alvoroçando suas penas ao redor do milho seco, o galpão e seus mistérios de madeira gasta, o feijão temperando em mágica nas mãos tranqüilas da avó, o quinino chegando às seis da tarde nas mãos de barbeiro do avô. O gato dormia eterno na cadeira estofada da sala e o cachorro latia só por obrigação à chegada das visitas, porque ninguém ruim aparecia por lá. O sol atravessava as janelas brandas daqueles silêncios e derramava seus calores nos lençóis e cobertas das camas serenas, pondo em descanso a bonequinha de porcelana que morava ali. As paredes respiravam quietude e os retratos dos avós, retocados em carmim e assinados como obras de arte que eram, dividiam com a Santa Ceia e o rosário emadeirado o privilégio de serem únicos. Nas tardes de chuva, os bolos fritos ressumavam açúcar em cima do forno à lenha e a jarra de café preto repousava sua doçura pronta no canto da pia, só para os adultos e inalcançável aos olhos infantes dos netos. leia mais »





Estátuas vivas

Henrique Schneider

A estátua viva, engalanada em suas vestes brancas de pitonisa grega, enfeitava com sua imobilidade a movimentada manhã dominical da Redenção. O colorido e o burburinho, as crianças a tocar-lhe as roupas para saber se eram de verdade, os raros latidos dos cães menos inteligentes, nada conseguia romper-lhe a atenção que, brilho claro e alvaiade no rosto, reservava à personagem. À frente do banquinho no qual se equilibrava há horas, um pote no qual os freqüentadores do brique depositavam alguns trocados. Apenas de quando em vez, porque até às estátuas deve ser dado o privilégio do movimento, ela trocava de posição, sem alterar a expressão vaga e distante do olhar e sem sorrir: sorrisse, e o dente faltante lhe destruiria a altivez de pitonisa e terminaria sem dinheiro o seu domingo.

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Moto-perpétuo

do blog Luís Antônio Giron
quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eu queria nadar, correr, malhar, ler, ouvir música, namorar, beber, mas não consigo. Não posso, e não se trata de preguiça. Culpo esta vida trepidante que leva a lugar nenhum. Às vezes tenho a impressão de estar sendo puxado pelos dois braços, impelido para trás e para cima, como enganchado à fatalidade. Outras vezes a sensação é de uma reprise incansável das mesmas ações em nome do dinheiro. Trabalhar cansa, já dizia o poeta italiano Cesare Pavese. Viver esfalfa, escreveu o Conselheiro Aires.

Pensando bem, não importa o movimento que faça – se para frente, para o lado ou para trás – ou para onde me dirija, pois estou sempre aos círculos, apegado à circunvolução terrestre e ao destino de sua natureza, do ar que tenho de respirar, da água obrigado a beber.

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O sonho dentro do sonho

Henrique Schneider

Marisia sempre teve o dom de sonhar bem. Seus sonhos têm começo, meio e fim, as cores claras e belas, têm nomes e lugares exatos, têm rumo e destino, dosam tristeza e alegria nos seus tamanhos certos e têm sempre a generosidade desabrida de estar vivos na hora em que Marisia acorda.

E talvez seja isso o que mais a fere: acordar destes sonhos multicores e tê-los próximos e doloridos durante todas as solitárias horas de seus dias em preto-e-branco.

Então que, numa noite qualquer em que já se preparava para dormir, o copo de água acomodado no criado-mudo, Marisia teve a idéia de salvar seus dias: tentaria, no sonho, encontrar o par perfeito.

O par perfeito chamava-se Osvaldo e encantou ainda mais o sonho de Marisia. Esta, quando acordou, descobriu que era feliz: sabendo escolher os motivos de seus sonhos, seus dias monótonos serviam apenas como intervalos às noites coloridas.

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