Encolheram o passado

do blog do Luís Antônio Giron
segunda-feira, 22 de junho de 2009

Andam me chamando de saudosista por causa das reminiscências que derramo neste espaço. Onde já se viu um andarilho da cidade, atento ao trânsito, que vive de se equilibrar entre a calçada e a rua, comportar-se como um ser nostálgico, lamentando o fim de prédios, obras de arte e pessoas?

Aos críticos respondo que é isto mesmo: sinto falta de uma cidade que desaparece aos poucos, sim, e adoro lançar jeremiadas sobre o que perdi. Vivo de retratar paisagens e sentimentos atropelados pelo avanço catastrófico de um falso progresso, que devasta a natureza e derruba casas em benefício de torres apocalípticas. O resultado é a desfiguração do espaço urbano e, pior, a morte de valores humanos que até pouco trempo eram fundamentais.

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A arte de narrar a História

Marcelo Spalding
Digestivo Cultural, Quinta-feira, 19/11/2009

Escritores contam histórias, inventam histórias. Mas não só. Airton Ortiz, por exemplo, é um jornalista e escritor que viaja pelo mundo em busca da História com “H” maiúsculo para transformá-la em histórias de gentes e lugares distintos, distantes, por vezes esquecidos. Sua série Viagens Radicais já percorreu Egito, Himalaia, Índia, Everest, Kilimanjaro, Amazônia, Tibete, Alasca, o mundo Maia. E agora chega ao palco da guerra mais simbólica do século XX, a guerra que plantou a semente do pacifismo numa nação sempre belicosa e manchou de sangue a bandeira norte-americana.

Vietnã Pós-Guerra: uma aventura no sudeste asiático (Record, 2009, 266 págs.) começa quase como um diário de bordo, relatando desde o embarque de Ortiz (o autor-narrador-personagem) com seu amigo e fotógrafo Ferreira (que o acompanhará pela aventura) em Porto Alegre até a parada em Amsterdã, a chegada na Tailândia, depois a ida para Laos e, finalmente, a viagem ao Vietnã, quando a história toma novo rumo.

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Café Plaza Dorrego

Henrique Schneider

A fotografia da conversa entre Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato não é a única relíquia do Café Plaza Dorrego, mas para Germano era a mais importante. Há outras tantas preciosidades: as mesas e cadeiras calcadas pelos tantos anos, o piso gasto em cafés, as cascas de amendoim meio espalhadas pelo assoalho, a doce confusão, o ar cheio de histórias que se respira lá dentro. Mas, para Germano em sua vida escritora, nada que se compare à foto de Borges e Sábato, sentados ambos ali, conversando silêncios e colocando a limpo assuntos que os uniam e separavam.

Então que Germano decidiu: precisava escrever um conto ali mesmo, sentado à mesa logo abaixo da fotografia, sob a inspiração próxima dos dois mestres. Seria o melhor de todos que havia escrito, certamente, aquele com o qual seria mais lembrado e aplaudido. Um conto escrito num centenário café buenairense, sob os auspícios severos de Borges e Sábato: o conto.

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Como decifrar um bairro

do blog Luís Antônio Giron
segunda-feira, 22 de junho de 2009

O cronista trabalha como um construtor de diques imateriais. Em seu texto, ele quer represar a passagem do tempo, segurar uma visão e a palavra fugidia no tubilhão das metamorfoses. Com a passagem das coisas, a crônica termina por virar documento e, às vezes, com sorte, obra de arte. O sonho do cronista é, no fim, conservar fatos pela memória. Ando comparando certos lugares descritos por cronistas do passado e a situação em que esses espaços se encontram hoje. Os cenários se alteram e os textos retratam algo que já não pode ser verificado. Não vou cair em lamentos em torno da devastação da paisagem urbana. O que me interessa é descobrir restos dos que os mestres da língua retrataram nas ruínas que toda evolução urbana provoca.

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Brincadeira

Henrique Schneider

Hugo era um sorriso só e a condição invencível de brincalhão já lhe havia custado alguns problemas. Com ele o ditado virava verdade: perdia o amigo, mas não a piada. Era maior, mais forte que ele: quando percebia, já estava fazendo o comentário, a brincadeira. Nem sempre na hora ou na ocasião certas. Mas os amigos não deixavam de reconhecer que a companhia de Hugo era sempre uma festa.

Por isso, quando ele apareceu namorando a Zelinha, todo mundo estranhou: se havia alguém sério, era esta moça. Não ria de nada e nem para ninguém, a vida para ela era toda compromisso, objetividade. Ninguém mais distante das piadinhas do Hugo. Ele justificando, sempre o sorriso:

“É que os opostos se atraem.”

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Cidade macabra

do blog Luís Antônio Giron
terça-feira, 19 de maio de 2009

Quando esteve por aqui, semanas atrás, o diretor de cinema inglês Peter Greenaway contou que, na vez anterior em que estivera na cidade, em 2001, tinha observado urubus voando nas alamedas. A visão o inspirou a fazer um filme de vampiros na Paulicéia, um longa-metragem que retratasse a cidade.

Fiquei admirado com a intuição de Greenaway. Porque São Paulo é e sempre sempre foi lugar inspirador de histórias de terror – e ligado ao macabro. É curioso que os paulistanos não assumam a faceta lúgubre, coisa que os londrinos já fizeram. Comentei isso com a escritora Lygia Fagundes Telles, ao entrevistá-la sobre seu último livro, Conspiração de Nuvens. Um dos relatos da obra me transportou à São Paulo horrenda e fantástica. E ousei sugerir à grande dama das letras: “Lygia, por que você não escreve um romance sobre a São Paulo byroniana do século XIX?”. Ela sorriu enigmática.

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As flores do mal

Henrique Schneider

Quando ele entrou no açougue, ainda indeciso sobre a carne a comprar para o churrasco, o homem grande sentado atrás do balcão tinha todas suas atenções depositadas nas páginas de um livro.

“Lendo o que?” – perguntou o cliente, talvez por surpresa, enquanto o açougueiro ainda levantava para atendê-lo.

“‘As Flores do Mal’. Do Baudelaire.”  – e levantou a capa do livro, como se quisesse exibi-lo.

“Ah, terror?” – questionou o outro, um pouco distraído, mais para comentar alguma coisa e já embicando os olhos em direção a um pedaço de alcatra luxuriosamente pendurado nos ganchos da vitrine.

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Corpo Gênero por Mary del Priore

O que? Mesa Corpo Gênero

Mediadores? Claudia Wonder – cantora, compositora e ativista do movimento gay e Maria Filomena Gregori – antropóloga

Quando? 24 de novembro, terça-feira, às 19h30

Onde? Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo – Rua Álvares Penteado, 112 – Centro – 01012-000 / São Paulo (SP) – (11) 3113-3651/3652 – ccbbsp@bb.com.br

Quanto? Entrada franca – Senhas distribuídas na bilheteria do teatro a partir das 10h do dia do evento – Sujeito à disponibilidade de lugares





Bento

Henrique Schneider
Os olhos de Bento procuram o fim daquela imensidão lisa, mas não conseguem encontrá-lo: o pampa é um mar sem água e as coxilhas, suas delicadas ondas. Vez por outra, ao longe, um breve emaranhado de árvores, apenas para emprestar à enormidade daquele verde um ou outro pintalgado mais escuro. É muita a terra, e muito bela, e misteriosa, ele pensa enquanto cavalga em frente a um grupo silencioso.
O silêncio.
Bento sempre achou que o pampa, mais que simples paisagem, está incrustrado na alma do gaúcho. Este ser ensimesmado, calado, pensador, cujos olhos costumam falar mais que as frases. Porque é assim: tanta grandeza, tanto céu sobre tanto campo, uma casinha ou outra perdida na paisagem – não há outra chance que não a da solidão.
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As cores e o tempo

do blog Luís Antônio Giron
quarta-feira, 22 de abril de 2009

Enquanto eu fazia teste de equilíbiro na guia da calçada, admirando pela rua as roupas, cabelos, maquiagens, cartazes, prédios e carros, passei a refletir sobre o poder das cores. Imaginei um filme que mostrasse o passado colorido e o presente preto-e-branco, para captar como a cidade e a vida alteram suas tonalidades. Queria assim inverter um lugar-comum no cinema: aquele tipo de cena monocromática que representa o passado, em contraposição às seqüências coloridas do presente. É como se o passado se esmaecesse na memória, até virar sépia. O chavão deve ter sido criado na época da popularização do cinema a cores – e aí talvez o preto-e-branco tivesse um sentido de inovação tecnológica, ainda vibrante na cabeça do público.

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Lembranças de um hotel

do blog Luís Antônio Giron
domingo, 12 de abril de 2009

Hotéis são paradoxais. Apesar de sólidos e construídos para durar, deixam ao mesmo tempo transparecer uma instabilidade, como se soubessem que passam. Eles cruzam por nossas vidas, surgem e somem ao sabor do acaso. Eles imitam o destino de seus hóspedes. Hotéis são hóspedes da História, também vão e vêm. Para quem mora nos arredores, evocam visitas, encontros, espetáculos, situações banais ou inusitadas. Por isso, me emociono tanto quando certo hotel some de repente.

O parágrafo que acabou é só uma desculpa para falar de um hotel fascinante, candidato à desaparição: o Maksoud Plaza. O luxuoso prédio com seu átrio de 22 andares, fundado em 1979, foi a leilão e não apareceu comprador. Continua a funcionar, mas ninguém sabe até quando. Outros grandes hotéis tombaram: Crowne Plaza, o Hilton do Centro, o Cesar Park. O Maksoud é o derradeiro representante do brilho dos anos 80.

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