do Blog de Luís Antônio Giron
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Tenho visto nos trens e ônibus pessoas que conseguem usar o tempo para ouvir música. Antigamente era difícil topar com alguém de pé, absorto em uma música. Tudo ficou mais fácil.com a popularização dos tocadores de mp3. Agora você pode embarcar num ônibus da periferia e deparar com pelo menos cinco pessoas silenciosas, com o olhar oco, prestando atenção nas suas canções favoritas. Isso não acontecia aqui cinco anos atrás, e eu já havia notado o fenômeno do mp3 no metrô de Nova York e nos ônibus londrinos. A sensação inicial foi de estranhamento.
As tecnologias mudam os hábitos. Mesmo com todas as vantagens, os tocadores digitais criaram a mais terrível forma de isolamento urbano: ouvir música em volume alto sem que os outros notem ou se irritem. Eu me pergunto se essa mudança é positiva. A música educa e altera a sensibilidade. Mas os tocadores de mp3 estão gerando novas espécies de zumbis urbanos. As pessoas embutiram a solidão e agora dialogam menos. Ouvir música sem prestar atenção nos barulhos em torno é a forma mais triste de andar sozinho, de evitar contato.
por Dora Lorch
Antes de brigares porque seu filho chegou tarde, agradeças a Deus porque ele chegou inteiro; Se não chegou inteiro agradeças porque chegou vivo.
Antes de chorares a perda de pessoas queridas, agradeças que elas tenham lhe dado o prazer de compartilhar pelo menos parte da vida contigo.
Antes de brigar porque seu filho repetiu o ano, lembre-se que ele esta estudando e isso é um grande privilégio; o importante é não desistir.
Antes de ficares bravo porque não sabes onde vai passar as festas, agradeças que tenha tantas pessoas querendo sua companhia.
Henrique Schneider
Seria a primeira noite no apartamento novo, e Cleber pensava – ainda no emprego e não sem certo desânimo – na correria que seriam as arrumações, as caixas e pacotes a desfazer, as tentativas enjambradas de decoração da sala, o indefectível prato quebrado na hora de guardar. Obrigações a serem cumpridas pouco a pouco, todas as noites um avanço: não iria se esfalfar numa vez só, decidiu, enquanto, trabalho encerrado, já chegava em casa.
Quando abriu a porta do apartamento novo, tomou um susto e voltou novamente ao corredor, a certificar-se de que era ali mesmo que morava. Olhou o número logo acima do olho mágico e confirmou: estava se mudando para o quatrocentos e oito e aquela era a porta do quatrocentos e oito. Tudo certo.
Mas além da porta, nada o esperava da forma como imaginava: os móveis estavam todos impecáveis em seus lugares, não havia caixas nem pacotes atravessados no meio da sala, nem cacos de copos ou pratos espalhados pelo assoalho. Nada. Além disso, a sala estava do jeito que ele desejava, decorada como havia pensado sem saber se teria o talento de executá-lo. As coisas todas em seus lugares.
Fico meio sem jeito ao escrever sobre sexo. Sempre achei melhor fazer do que falar sobre isso, escrever então, parece-me dificílimo! Fui criada a moda jurássica por uma mãe que dizia que a “virgindade é a arma da mulher”. Minha sorte foi ter me rebelado cedo e conto isso apenas para que o leitor compreenda o motivo pelo qual, apesar de me considerar liberada, solta etc, etc, acabei levando mais de quarenta anos para entrar em uma sex shop.
Henrique Schneider
Fernando andava despreocupado e distraído pela noite da cidade grande, como se morasse em outro tempo, quando a voz vinda da parede o mandou parar, anunciando o assalto. Na ponta da voz, um revólver brilhava sua ameaça.
Ao escutar a ordem, ele deu-se conta de onde e quando estava, das notícias de violência empilhando páginas de jornais, da realidade existindo muito mais dura do que nos filmes, de que estas coisas não aconteciam apenas com os outros – e engasgou em seu terror.
O homem repetiu o mando, enquanto já acertava uma coronhada na nuca de Fernando, que fê-lo dobrar-se.
“Calma, calma!… ” – ele tremia em seu pedido. – “O senhor fique calmo que eu entrego tudo.”
do Blog de Luís Antônio Giron
sábado, 24 de outubro de 2009
Gente me para na guia da calçada só para comentar o último texto que fiz publicar neste jornal. Imagino que isso aconteça com outros cronistas deste e de outros periódicos. É uma experiência estimulante e nova, pelo menos para mim, que nunca antes havia tentado escrever sobre a cidade. Fazer crônica envolve atos de compreensão (e ocultação) mútua entre aquele que escreve e aquele que lê.
Devo dizer que há muito tempo sou cronista, mas de espetáculos, discos, filmes e livros. A esse tipo de cronista cultural denomina-se crítico. O crítico é alvo de sentimentos extremos. Ou é detestado ou amado – e o pior que lhe pode acontecer está em ser ignorado pelo leitor. A indiferença lhe é mortal. O crítico faz um esforço para aparecer, à custa de resenhas de obras de arte alheias.
Henrique Schneider
— O senhor está despedido, seu Moacir.
— Como, assim?
— É que, por causa da crise, a empresa está tendo que dispensar alguns de seus colaboradores mais antigos. E o senhor, seu Moacir, infelizmente, foi um dos escolhidos por nossa equipe de estratégia financeira.
— Não foi isso o que eu perguntei.
— Como assim?
— Eu quero saber porque é que vocês estão me chamando de ‘senhor’! De “seu Moacir”! Nunca ninguém me chamou de ‘senhor’ nesta fábrica, nem de ‘seu Moacir”. Foi sempre “tu” e “Moacir” o tempo inteiro. Então, que invenção é essa de ‘senhor”, agora?
— É que, entenda bem, a empresa sabe que este é um momento difícil para o senhor…
— Olhaí! De novo, este ‘senhor”!
— …e então achamos que se trata de uma ocasião em que a pessoa precisa de, digamos, um respeito extra. leia mais »
do Blog de Luís Antônio Giron
Novembro 16, 2009
O que o calendário Maia revela sobre o Juízo Final em 2012
Depois de tantas novidades, a humanidade parece estar à espera de um ponto culminante para uma história que está por terminar. O que poderia ainda espantar as multidões acostumadas aos espetáculos e aniquilações e reviravoltas as mais avassaladoras e imprevisíveis? A resposta é: só o fim do mundo pode matar a curiosidade de nossos sentidos embotados pelo excesso de informação.
Por Walcyr Carrasco
Veja São Paulo| 30/12/2009
Minha avó paterna preparava um banquete de Natal. Lembro-me das mesas emendadas para abrigar filhos e netos. O menu era uma miscelânea: frango assado, cabrito, pernil, tortas, macarronada, maionese, arroz com passas. Travessas espalhadas pelas mesas, e o almoço ao som de risos e pedidos de “me passa a maionese, me dá o frango”, com os pratos sobrevoando as cabeças. O vinho, só para os adultos, mas nós, crianças, tínhamos direito a um pouco com água e açúcar misturados no copo para matar a vontade. Minha mãe me exibia como troféu:
— Olha só como ele cresceu!
por Dora Lorch
Joana é uma pré-adolescente típica. Bonitinha, desperta para a vida, mas ainda sem muita experiência do mundo. Semanas atrás seus pais estavam desesperados porque ela queria namorar com um rapaz dois anos mais velho. Será que adianta proibir? Não seria melhor aceitar e trazer este namoro para dentro de casa, de modo a ficar de olho e prevenir possíveis problemas?
Foi assim que os pais de Joana foram convidados para conhecer os pais do namorado. Foram buscar a família de carro, o que era um luxo naquela região. O jantar foi muito agradável. No cafezinho, o pai do rapaz descobriu que ele tinha saído de carro com a Joana para dar uma volta. Bravo, reclamou que o carro estava quase sem gasolina, e como ele ia levar a família de volta para casa? Disse também que Antônio era menor de idade e que não podia pegar o carro sem avisar. O rapaz retrucou e os dois brigaram ali mesmo, com tapas da parte do pai.
Henrique Schneider
Há dias este sonho, este mesmo recorrente sonho.
Ele enfrenta um bando de indomados miúras, touros ferozes e rápidos, que percorrem os cantos inteiros da arena, levantando areia seca e brava a cada nova arremetida. São onze, quinze, vinte – o número pouco importa, e a verdade é que cada touro tenta mover-se tão rápido que é quase impossível contá-los. São touros de todos os tipos, tamanhos – de patas curtas e longas, aspas estreitas e largas, a ferocidade ibérica estampada em seus olhos vítreos. Um deles – o mais afamado, de pelos longos – tem no fundo deste olhar feroz um laivo azul mal esquecido. Todos estes touros bravios a correr de um lado ao outro, mas sem avançar em nenhum momento – e ele os enfrenta, gigante, galhardamente com sua fulgurante capa vermelha.