Capital dos pombais

do Blog de Luís Antônio Giron
sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O destino dos bairros de São Paulo é verticalizar. Tudo tende a ser substituído por um imenso pombal branco e cinza. Pombais é como a gente chama pejorativamente essas torres que andam brotando por aí, nos lugares mais absurdos. Surgem no meio de uma favela, ou no coração de uma vila tradicional. Os pombais estão varrendo SP de Leste a Oeste.

Conto o que vejo. No início do ano, fui convidado a participar de uma reunião da comunidade da capela de São Miguel Arcanjo, no Belenzinho. Na pauta, o futuro do bairro. Isso porque a Zona Leste já não é a mesma. As humildes casas térreas estão indo embora. No lugar, chegam os prédios – e, com eles, novos moradores. Como abrigar tanta gente numa capelinha fundada por uma família na década de 1930? O dilema daquelas pessoas é escolher entre se isolar num gueto ou converter a capela numa igreja. Gueto está fora de questão, avisou o padre. Eu me meti na história e retruquei: será que a ampliação não significa o fim da paróquia e a substituição por outra realidade?

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Os homens verdes

Henrique Schneider

“Mas o maior problema, doutor, são os homenzinhos verdes que me infernizam a vida!” – o homem exclamou, como se finalmente conseguisse dizer o que o incomodava, já ao final desta primeira consulta ao psicólogo.

“Que homenzinhos verdes? E o que eles fazem?” – perguntou o doutor, sabendo que o assunto só poderia ser convenientemente tratado na próxima consulta: a hora do novo paciente chegava agora ao final.

“Estes homenzinhos que estão sempre ao meu redor, incomodando.” – e ele apontou, temeroso, um canto da mesa do psicólogo. – “Ali, vê? Ali estão eles, parados, sentados na sua escrivaninha, rindo para mim, me desafiando.”

O psicólogo olhou o canto indicado e lá só havia papéis intocados e a pesada estátua de Sigmund Freud – nem sinal de homenzinhos verdes.

“Mas o que eles fazem?” – ele repetiu a pergunta.

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A morte não presta

do Blog de Luís Antônio Giron
Novembro 11, 2009

Ela só ensina uma coisa aos vivos: matem-me se forem capazes

Morei por onze anos em uma rua na Vila Hamburguesa em São Paulo que começava no mundo dos vivos e terminava no dos mortos. Ou vice-versa. Eram oito casas do lado de cá e umas cem do lado de lá. Minha rua era a continuação da aleia do cemitério. Quando atravessava o muro, ela adquiria o nome de um vulto célebre: Numa de Oliveira, o banqueiro da Semana de Arte Moderna de 1922. Nessa estranha vizinhança de mortos com vivos, estes tratavam de viver suas vidas ignorando a realidade que se mostrava atrás dos muros em que repousavam os que já foram. A rua cheia de barulho de crianças, baloeiros niilistas e senhoras fofoqueiras não deixava ninguém quieto. Além de tudo dava para uma praça – e quem mora perto de praça tem de renunciar ao silêncio. Por isso eu costumava dizer que os vizinhos de lá eram os melhores do mundo, porque dormiam sem incomodar ninguém. Ao contrário, os defuntos mostravam que o silêncio em que estavam mergulhado prolongava a sua inexistência para sempre. Ensinavam que não havia nada mais vital que muita alegria e barulho. Com meus vizinhos do além, aprendi que eu não precisaria me preocupar em trabalhar menos ou buscar compensações nas poucas horas de descanso que me restavam, porque eu teria a eternidade para descansar.

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Páginas de passeio

Henrique Schneider

Eduardo faz um gesto pequeno, e dois dragões brigam entre si despejando fogos. Desvia a mão, os dedos resvalam, e quem aparece, ensimesmado e parecendo não dar importância a nada mais, é um detetive vestido em seu capote cinzento e pronto para resolver outro caso. Ele pensa um pouco em ficar, desvendar junto ao detetive aquele novo crime, mas não: logo já está em sua frente um velho cego que conta histórias como ninguém, histórias de gaúchos e das ruas, do além e ainda mais, e que no meio de cada história dá um sorriso inexistente, que só os seus olhos vazios conseguem perceber. Dois passos ao lado, e a saga de uma família conta os passos criadores de toda uma terra, legando-os ao tempo, ao vento. Cem anos de maravilhas o esperam no passo seguinte, cem anos em que a solidão se constrói em guerras e peixinhos dourados, batalhas perdidas e borboletas amarelas. Ele espera um pouco por ali, a ver se aqueles cem anos se repetem outra e outra vez e ele se decida a ficar sempre e mais sempre no mesmo lugar encantado. Mas o século solitário e belo se esquiva e dá lugar a uma rebelião inominada, mineiros que descobrem o valor que têm no tempo, e daí a um pequeno lavador de pratos que, um século depois, ainda não consegue mensurar bem a própria importância. Volta um pouco, talvez assustado com aquela luta germinal – lutas germinais sempre assustam os incautos – e cai próximo às garras africanas de um leão, justamente a tempo de ser salvo pela coragem imperiosa de um homem que voa em cipós tão fortes como aqueles que sua infância tecia em lençóis enrolados. leia mais »





Choque de zonas

do Blog de Luís Antônio Giron
quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Em qualquer cidade, a divisão do território do município em zonas deriva de uma decisão do plano diretor. Mas em São Paulo essas diferenças formais se traduzem em ilusões de identidade. A vastidão da mancha urbana faz com que os habitantes de cada região tentem se encaixar em uma série de características e valores comuns. E assim compartilham culturas distintas entre si. Não se trata de um apartheid ou um zoneamento de classes, embora a origem da Zona Leste seja proletária e a Zona Sul abrigue as mansões e prédios mais ricos. Mas hoje em dia o Tatuapé da ZL é quase um bairro nobre, e do ladinho do Morumbi espalham-se favelas gigantescas. Como as camadas sociais se misturam, resta aos habitantes de cada área se agarrar a uma série de traços distintivos, como modo de falar, comportar-se e até enxergar o mundo.

Quantas vezes não me disseram que o pessoal da Zona Leste é mais simpático e atencioso que os cruéis esnobes da Sul, ou que aquela menina possui um sotaque meio caipira da Oeste? Na periferia, os membros ricos e pobres das cooperativas culturais recebem gente de outros lugares como extracomunitários.

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Propaganda gratuita

Henrique Schneider

Eles já andavam pela trigésima cerveja quando alguém resolveu perguntar:

“Mas afinal de contas, aquilo que o Henrique Schneider escreve no ABCDomingo é conto ou é crônica?”

A mesa teve um segundo de estupefação; depois, como estavam todos bêbados mesmo e àquela hora qualquer assunto servia, resolveram seguir com a conversa. O Catraca e o Eraldo não tinham idéia de quem fosse o Henrique Schneider, mas ainda assim achavam que ele escrevia crônicas. O Juarez não sabia bem como classificar os textos, mas achava que eles não eram grande coisa. O Getúlio tinha razões para achar que era mesmo crônica:

“Ele é cronista do ABC.” – decretou, em sua lógica simples.

“Não, ele é colunista do jornal.” – corrigiu o Melita, que ninguém sabia porque tinha este apelido.

“Então não sei mais nada.” – comentou o Getúlio.

E começaram todos numa discussão acalorada sobre a matéria, inclusive os dois que não sabiam quem era o tal de Henrique Schneider. Uns defendiam que era crônica, outros que era conto. O Juarez começou a entabular uma tese de que não era nem conto, nem crônica, mas cochilou antes de terminá-la. Só o Manuel não dizia nada; apenas bebia sua cerveja como se estivesse sozinho. Só resolveu opinar quando a discussão já chegava aos limites da irrealidade:

‘É conto. É conto e tá acabado.”

Os companheiros da mesa mantiveram um silêncio de expectativa, aguardando a explicação.

“Um conto é uma história inventada. É ficção. E o Henrique Schneider sempre inventa as histórias do jornal. Por isso, é conto.”

“Como é que tu sabe?” – perguntou o Catraca.

“Porque eu sei. Vê só. Na próxima quarta-feira, às oito e meia da noite, ele vai lançar um livro na Feira do Livro de Porto Alegre, chamado ‘O Grito dos Mudos’. Todo mundo está convidado. Se ele fosse cronista, era só anunciar o lançamento e tudo bem. Como é contista e tudo o que escreve no ABCDomingo é ficção, prá não quebrar a escrita ele precisa criar uma história inteira só para fazer essa propaganda. Até inventar um cara chamado Catraca ele inventou! É ou não é uma obra de ficção? Por isso, é conto.”

Com o que a mesa inteira concordou. Inclusive o Juarez, que acordou de seu cochilo bêbado só para dizer que eram uns continhos muito meia-boca.





Anselmo Duarte, vítima do star system brasileiro

do Blog de Luís Antônio Giron
Novembro 07, 2009

Anselmo Duarte foi vítima da inveja dos colegas

Anselmo Duarte é até hoje considerado o mais importante cineasta do Brasil. Sua história como galã absoluto da Vera Cruz e sua trajetória como diretor o tornaram insuperável. Ele foi o primeiro (e até hoje único) diretor brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, pelo filme O pagador de promessas. Além disso, ele conquistava todas as mulheres e era um galã. Sua carreira foi literalmente invejável. Foi tanta inveja em cima dele, que ele foi banido da arte para a qual nasceu, o cinema. Tornou-se um folclore. E agora o perdemos sem ter consciência de sua enorme importância para o cinema nacional.

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Natal, doce Natal

por Dora Lorch

Cresci numa família grande, que todo ano se comemorava o Natal. A festa era sempre bonita, tinha comidas gostosas, parentes, amigos, presentes. Tinha Papai Noel. Lembro do clima festivo, do carinho que todos tinham com todos. De comprar e embrulhar presentes escolhidos a dedo. Lembro da mesa posta para as crianças. Este é o verdadeiro espírito de Natal: pessoas reunidas celebrando esta união.

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Solidariedade

Henrique Schneider

Ninguém sabe se no início da noite eles se conheciam. Mas a verdade é que, algumas horas e muitas cervejas depois, já eram os melhores amigos desde o nascimento. O fato de não saberem o nome um do outro era pouco importante: àquela hora nenhum dos dois já sabia mais o próprio nome.

O garçom ia e vinha trazendo as bebidas e uns petiscos, que eles comiam por obrigação, enquanto davam gargalhadas das anedotas contadas. Depois de um certo tempo, os dois já riam das anedotas não contadas. Só ficaram sérios por um instante, quando o garçom anunciou que o bar ia fechar. Eram três da manhã e não havia mais ninguém por ali, explicou o homem, compreensivo: tantos anos de bar lhe haviam dado esta condição meio psicóloga.

“Eu te levo até tua casa.” – decidiu um dos amigos, enquanto ambos tentavam levantar com alguma dignidade.

“Não precisa se incomodar.” – disse o outro, língua enrolada.

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Datas extremas

do Blog de Luís Antônio Giron
quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Durante mais de dois dois anos, segui pelo meio-fio, persegui o que não se via ou não se queria ver, aqui da fronteira, do hífen que separa ou une a rua e a calçada. Anotei tudo à mão, no meu caderno de bolso, enquanto ia andando com o olhar atento, ou sonolento, ou desencantado.

Flagrei favelas destruídas para dar lugar a torres gigantes; políticas públicas sem pé nem cabeça; personagens e amigos que surgiram ou morreram; experiências tragicômicas de chuvas, festivais, bares e tropeços, dramas em filmes e em jogos de futebol; retratos de papagaios e cães. Conversei com o Sr. Trema sobre a nova ortografia; falei do paulistanês, dos andarilhos, dos catadores de papel, dos mágicos, dos mendigos que povoam as ruas. Refleti sobre a crônica e a vida do escritor nas redações. Recordei uma São Paulo byroniana e romãntica que não vivi, mas conheci por tabela. Fiz uma elegia ao poeta que se foi, contei a história de outro que se escondeu e fingiu morrer. Escrevi um testo que um amigo saudoso gostaria de ter feito. Narrei um encontro com o diabo e com os anjos. E contei um pouco de meus passos, hesitações e implicâncias.

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Tática para enloquecer incautos

Henrique Schneider

Ele sairia para uma rápida viagem de negócios e pesquisava na internet os preços das passagens e horários de võos. Surpreendeu-se que, em determinada companhia, não houvesse qualquer lugar disponível ao longo de toda a semana, para os vôos de volta. Não pode ser assim, pensou, alguma coisa deve estar errada nesta página eletrônica. No cantinho da página, havia o anúncio de serviço telefônico de atendimento ao cliente, através de um telefone destes 0300 – tarifa de ligação local mais impostos.

Estremeceu: estes 0300 te deixam esperando horas e não costumam resolver grande coisa. Mas precisava da passagem com certa urgência, e a ausência de vôos na página era um mistério. Por isso, resolveu ligar.

A ligação demorou para ser atendida.

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