Cantando tango

por Henrique Schneider

Não era uma casa de tangos, mas um restaurante comum. E o bairro era o Boedo, nada de Recoleta ou Puerto Madero. Ou seja: almoçávamos numa Buenos Aires mais portenha do que turística,e a impressão que tínhamos, Berenice e eu, era que talvez fôssemos os únicos clientes de quem os garçons não sabiam o nome (não era assim, mas tínhamos a impressão). Os clientes eram vizinhos, o pessoal do bairro e seus conhecidos. Comíamos uma parrilla tão simples quanto bem servida e o vinho nos dava a sensação confortável de que poderíamos ficar por lá o tempo que quiséssemos, escutando as milongas, tangos e um ou outro chamamé que o cantor executava, sem pressa, acompanhado de um violão e do acordeonista. A felicidade, pensávamos, pode ser simples.

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Henrique Schneider: debatedor do ‘Ponto e Contraponto’

Henrique Schneider é o novo debatedor do ‘Ponto e Contraponto’

Escritor hamburguense agora é um dos integrantes do programa da rádio ABC 900

A literatura do escritor Henrique Schneider agora pode também ser ouvida semanalmente nas ondas do rádio. Desde o início de março, o escritor hamburguense é um dos debatedores do Ponto e Contraponto, da emissora ABC 900. Compõe a mesa às quartas-feiras. O programa vai ao ar todas as manhãs na estação 900 AM, entre 8h10min e 9h10min, e é possível também ouvi-lo na Internet.





Estupro: por que é tão difícil denunciar?

por Dora Lorch

Janaina é uma mulher que acabou de se separar do marido. Seu olhar é opaco e triste. Dá a impressão de que nunca soube o que é felicidade. Mesmo quando conta uma situação feliz, é uma pessoa contida. Veio falar comigo porque não conseguia se aproximar do filho adolescente. Gostava dele, mas não conseguia abraçá-lo, dizer que o amava ou manifestar qualquer afeição. Ela sentia falta dessa proximidade e, certamente, o filho também.

Enquanto eu tentava entender o que impedia as demonstrações de carinho, ela contou que tinha um problema emocional sério: era esquizofrênica. Há anos vinha sendo medicada porque tinha surtos, especialmente à noite. E frisou que aconteciam quase todas as noites. Fato que estranhei, pois surtos não costumam acontecer com hora marcada.

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A hora certa para pedir perdão

por Henrique Schneider

Nunca mais, pensa Jerônimo, nunca mais. A primeira coisa a fazer quando chegar em casa é dizer à Lara que a ama, depois pedir-lhe perdão. E depois nunca mais.

Até agora não sabe o que foi que aconteceu. A discussão boba que tiveram no café da manhã, motivo perdido atrás das horas, o volume das vozes aumentando sem razões, os xingamentos indo além do que deveriam, palavras que mais adiante não se recolhem  e permanecem como marcas grudadas nos anos que seguem. Quando viu, estava levantando, a xícara de café ainda pela metade, na mesma hora em que Lara também se erguia – os movimentos parecendo desafios do nada, provocações. Quando se encontraram, ambos desatinados sem motivo, ele a empurrou.

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Trem-bala

Por Walcyr Carrasco
Veja São Paulo -  24/03/2010

Estou no Japão. É a viagem dos sonhos de todo escritor: vim pesquisar temas para o meu próximo trabalho em televisão. Não é uma viagem superplanejada. Fico indo e vindo entre três cidades: Tóquio, Nagoya e Osaka. Assim, viajei várias vezes de trem-bala. Exatamente: o trem-bala cuja construção de uma linha entre São Paulo e Rio de Janeiro provoca tantos questionamentos e exercícios de matemática financeira.

Viajei como simples passageiro, mala na mão. De Nagoya a Tóquio são 366 quilômetros, que o trem-bala percorre em uma hora e meia. Tudo tão fácil que até me assustei. A primeira surpresa foi na estação: havia trens saindo de dez em dez minutos, aproximadamente. Comprei a passagem na hora, sem precisar de reserva. Lugar marcado. Embarque rápido, sem o stress de um aeroporto. Nada de chegar quarenta minutos antes, entrar em fila para o check-in, passar pelo detector de metais e aguardar um bom tempo para o embarque. Viajei em dias de chuva e vento, quando certamente seriam suspensos os voos da ponte aérea. Dias em que o Aeroporto de Congonhas se transformaria em uma loucura com milhares de passageiros furiosos, sem previsão de embarque. O trem-bala é diferente simplesmente porque é trem! Na hora exata, fui até a plataforma e entrei diretamente no meu vagão. Sentei no meu lugar e pronto. Entre a chegada à estação e a partida, gastei, no máximo, meia hora! Melhor: os bancos têm pontos para conexão a cabo com a internet. Pode-se navegar no computador. Ou falar ao celular. Liguei o meu. O picotador de bilhetes pediu para que eu falasse na área de ligação com o próximo vagão, para não incomodar os outros viajantes. Pura delicadeza! Aliás, a figura do picotador vale um parêntese. Meu pai era ferroviário da rede Sorocabana. Na minha infância, eu sempre viajava de trem. O picotador do trembala me remeteu aos tempos de menino. A modernidade não eliminou a tradição. Nem a vaga de emprego.

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A noite dos viúvos

por David Oscar Vaz
15/12/2007

Lá em cima do piano

Tem um copo de veneno

Quem bebeu mor…reu

E o culpado não fui …eu

E o escolhido foi vo…cê!

É o mês das bruxas e de cachorro louco. Um professor amigo de Fernando acrescentaria também de crise política. Outros ainda… Não, chega; adicionar outras variedades de tragédias e fatalidades a um mês tão aziago seria torná-lo mesmo indistinto em relação aos outros. O certo, o previsível até, é que Fernando nunca deixou de guardar qualquer referência a este mês depois da tragédia, da única tragédia que agosto realmente lhe deu. Havia no dia 24, então, uma mística muito própria. Quando folheavam, ele e Teresa, um livro de fotografias sobre Pompéia, no primeiro aniversário sem a presença de Raul, ali deu, pela primeira vez, com a intromissão desses dois algarismos definitivamente associados. Ali surgiram o 2 e o 4, para sempre 24, numa legenda embaixo de uma fotografia, e este número trazia um ar irônico e perverso, como uma pessoa inconveniente que surgisse num momento muito grave: …e o Vesúvio entrou em erupção aos 24 de agosto… Fernando pasmou, súbito, como se visse brilhar, através dos dois algarismos, aqueles olhos sempre muito negros e sorridentes de Raul. Num segundo depois, se refez, se refez um tantinho, o suficiente para espiar de rabo de olho se Teresa sentira o mesmo calafrio que ele. Pareceu-lhe que não; ou não reparava na data, ou fingia não tê-la visto, ou, quem sabe, este número não tivesse a mesma importância que tinha para ele. Olhava antes fixa, tomada que estava, para a fotografia em que a cor sérpia predominava enfatizando o silêncio dos séculos em que um homem, fossilizado na sua cama e num gesto eterno e inacabado, pensou Fernando, esperasse pacientemente ser resgatado. Depois descobriu, uma revista na sala de espera do dentista o recordou, que Getúlio havia deixado a vida para entrar na história, naquele seu suicídio premeditado, nos mesmos precisos dia e mês. Soube em certa ocasião em que consultara um amigo sobre um bom livro para ler, que a data era também a do nascimento do escritor Julio Cortázar, cuja obra Fernando nunca leu, nem antes nem depois dessa conversa e, portanto, nunca pôde compreender o que queria dizer-lhe o amigo quando observou que sempre se poderia encontrar na vida de um cara comum um episódio que servisse de matéria a um conto de Cortázar.

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Conversa com tecnologia

por Dora Lorch

As relações em uma nova comunidade, novo condomínio ou nova escola são sempre complicadas. Cada família tem seus sonhos, valores e desconfianças. E quando se fala em filhos então é ainda mais complexo. Nas classes mais altas, a tendência é proteger a prole de qualquer problema. Nas classes menos favorecidas, é comum os pais deixarem os filhos arcar com as responsabilidades, mesmo que não tenha feito nada. O caminho do meio é o mais difícil, como diria Buda. Portanto, saber a hora de fincar pé e a hora de ceder é uma das tarefas mais difíceis.

Numa comunidade recém-criada, os meninos, no afã de delimitarem espaço e mostrarem quem manda mais, começam a brigar sem parar. O nível de agressividade é tão grande que, num belo dia, um grupo de pré-adolescentes ataca um menino pequeno, de aproximadamente oito anos. A camiseta do garoto ficou com a marca de um tênis, que deve tê-lo segurado enquanto estava no chão.

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Mini saia sem medo

por Claudia Matarazzo

Com mais de quarenta anos de existência e, no sobe e desce, entra e sai das tendências da moda, a mini ainda ocupa um lugar de destaque em quase todos os desfiles e coleções. Uns anos mais, outros, menos. Porém sempre presente.

No entanto, embora universal e pra lá de bem aceita, é preciso prestar atenção a alguns requisitos básicos de biotipo para vestir bem uma mini saia. É um caso clássico de uma peça de tal forma incorporada ao nosso cotidiano, que, muitas vezes não percebemos poder ser substituída por outra mais adequada.

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