Os editores afetivos

@reprodução

por Liliane Prata

Foi minha mãe quem inaugurou o cargo – ela, que lê tudo o que eu escrevo desde o tempo em que eu tinha certeza de que “pra” se escrevia com acento agudo.

Depois, meu primeiro namorado foi convocado. A partir de um determinado momento da minha vida, todo homem com quem eu me relacionasse por mais de três semanas era automaticamente designado para a tarefa. Assim como os melhores amigos – ou, pelo menos, os mais pacientes. Todos eles viraram, um dia, o que eu chamo de editor afetivo.

Claro, um editor afetivo não é um editor qualquer. Para começar, talvez ele precise de algumas orientações, até porque sua formação pode ser em direito ou zootecnia. Talvez o último livro que ele leu tenha sido Dom Casmurro, no colégio, e tudo o que ele se lembra foi que o debate da turma girou em torno da pergunta “traiu ou não traiu?”.

Mas não são orientações complexas. Até porque quando entrego um original a um dos meus editores afetivos, essas pessoas que aceitaram esse cargo por carinho ou, sempre desconfio, por um pouco de pena de mim, não espero uma crítica especializada. Senão, mandaria meu texto a um crítico especializado, ué. O que eu peço a esses editores afetivos é, na verdade, que eles sejam bons leitores.

Nem precisa ser um leitor modelo. Tenho dois leitores modelos: minha mãe e meu marido. O leitor modelo é assim: ele está sempre ávido para ler tudo o que você escreveu. Ele entra no escritório da sua casa quando você está digitando furiosamente, tomando xícaras e mais xícaras de café e jogando no lixo bolas e bolas de papel amassado (certo, vamos manter só a parte real da descrição, a saber: a xícara de café. No singular, porque tenho controlado a cafeína). Você pergunta o que foi, e ele diz, os olhos brilhando: “já posso ler? Já posso ler?” O leitor modelo começa a ler sua obra assim que a tem nas mãos e, vira e mexe, tem certeza de que está diante de um best seller. O leitor modelo deixa escritores carentes muito felizes. Eu sou uma escritora carente.

(Nota: além de gostar muito de você, é melhor que o leitor modelo seja alguém otimista, de bem com a vida, ligeiramente ansioso e, de preferência, que tenha uma predisposição natural a gostar de tudo o que lê. Depois, posso dar mais dicas de como encontrar um leitor modelo.)

Fora essa ansiedade, o leitor modelo tem as mesmas características do bom leitor. E o bom leitor, para mim, é aquele que se deixa envolver pela história. E que também é minimamente dedicado e atento, o que significa que não vai ler seu livro enquanto janta e olha a TV quando o time dele faz um gol. Só assim ele pode virar meu editor afetivo, para a sorte dele! Tudo bem, para a minha sorte.

Eu adoro acompanhar as reações desse leitor atento-e-que-se-envolve-com-a-história. Ele vibra quando planejei que ele vibrasse, fica p. da vida quando imaginei que ele ficasse, tem dúvida quando calculei que ele tivesse e, bem, tem uma ou outra reação que me surpreende, porque, afinal, um bom leitor é uma pessoa, não um fantoche, e eu escrevo, mas não sou vidente.

Se tem uma coisa que me faz descartar um editor afetivo em potencial é quando, em vez de relaxar e se envolver com a história, ele fica me ajudando a contar os erros de digitação e gramática. Como não sou de recusar boa vontade de ninguém, apenas mudo o cargo dele para revisor afetivo. O revisor afetivo faz você entregar um original que vai dar menos trabalho ao revisor de verdade.

De modo geral, só tenho a agradecer essas pessoas pacientes que aceitam ler minhas brochuras sabendo que, depois de elas lerem, eu ainda devo mudar milhões de coisas e que, além disso, sempre existe a chance de elas terem lido um amontoado de páginas que irei queimar depois.

Mas, mesmo só tendo a agradecer, confesso que tem uma coisa que me faz demitir um editor afetivo de vez.

É quando ele enrola para ler meus textos. Diz que está trabalhando muito, que está sem tempo, que precisou viajar, enfim: deixa minha brochura lá, abandonada. Espera um pouco: editor afetivo que não tem os conhecimentos de um editor de verdade, mas que age como aqueles editores de verdade que fazem você sofrer enquanto espera uma resposta?

Aí, não dá. Já tive um namorado/editor-afetivo assim e tivemos uma briga séria por causa disso. Quando ele ficou com outra mulher enquanto estávamos juntos, esqueci o episódio depois de alguns dias. Mas, quando ele enrolou por três meses para começar a ler um livro que eu tinha acabado de escrever, fiquei mal. Para mim, é motivo para demissão por justa causa.

Afinal, coração de escritor carente tem limites. Sofrer enquanto espero uma resposta, só se a resposta for de um editor de verdade.

Liliane Prata (@lilianeprata) é formada em jornalismo pela UFMG e, atualmente, cursa o quarto ano de filosofia na USP. Desde 2003, é colunista da revista Capricho. Publicou Guia Capricho – Sexo – Como começar bem.Marco Zero Editora, 2010, Uma bebida e um amor sem gelo, por favor.Marco Zero Editora, 2006,O diário de Débora 2. Marco Zero Editora, 2005, e O diário de Débora. Marco Zero Editora, 2003.




22 ago 2011, 12:54pm
by Tainara Costa


Liliane,
como sempre curti o seu texto! não escrevo livros,mas sei como é isso.
tenho agonia quando mando emails para uma pessoa e ela demora muito tempo para me responder sabe, fica me enrolando,enrolando e depois disse “foi mal, tô sem tempo para ler”,mas antes a pessoa tinha dito que sempre teria tempo.
é, eu sofro a espera de repostas hahaha
beijo

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