@ Jean Genet

por Mary Del Priore

Nas ruas das grandes cidades brasileiras já é possível ler em muitas camisetas “100% negro!”. Desde os anos 80, teve início um debate interno sobre a diversidade cultural e racial do brasileiro. A maior parte destes debates contaminou à consciência negra pela brecha da cultura popular. A música e as escolas de samba tiveram, nesse sentido, um importante papel mobilisador. A busca da “pureza africana” acompanhou-se também de uma crítica feroz ao sincretismo. Finalmente, a aprovação de cotas para os afro-brasileiros na universidade e no funcionalismo público acabou por negar a fábula do encontro harmonioso entre as três raças. Durante muitos anos, os negros aceitaram a ilusão de que a mestiçagem poderia ser a solução para a discriminação racial, diluindo a cor em casamentos mistos. Mas a questão da raça está também ligada à da posição social: quanto mais sobem na escala social, mais negros se tornam brancos.

O termo “multiculturalismo”, hoje, tão em moda, designa tanto um fato (sociedades são compostas de grupos culturalmente distintos) quanto uma política (colocada em funcionamento em níveis diferentes) visando à coexistência pacífica entre grupos étnica e culturalmente diferente. A doutrina multiculturalista avança essencialmente a idéia que as culturas minoritárias são discriminadas e devem merecer reconhecimento público. Para se realizarem ou consolidarem, singularidades culturais devem ser amparadas e protegidas pela lei. É o Direito que vai permitir colocar em movimento as condições de uma sociedade multicultural.

A pergunta a fazer é: será que os fins justificam os meios? O princípio da discriminação positiva não se choca com as exigências de igualdade do Direito? Caminhamos no sentido da justiça social? Sabemos que nem todos os membros das minorias são desfavorecidos e os que sabem aproveitar as vantagens são raramente os mais desfavorecidos. Por outro lado, existem grupos da população realmente desfavorecidos que não pertencem à minorias étnicas. Neste caso, todas as diferenças podem ser defendidas? Sabemos que há riscos do tipo: como proteger a minoria das outras minorias, os explorados dos excluídos? A quem cabe a legitimidade de atribuir uma identidade? Não é o indivíduo o único capaz de escolher sua, ou suas identidades de pertença? Mais ainda, quando pensamos que identidades individuais são construídas em oposição ao grupo de pertença.

Nas democracias pluralistas, assistimos a um movimento generalizado de incremento das identidades particulares. Minorias, populações autóctones, grupos de migrantes e imigrantes manifestam seu desejo de reconhecimento cultural. “Viver junto”, é uma questão cada vez mais premente. O processo de reafricanização do Brasil talvez melhore o status social, artístico ou religioso de muitos de nós. Mudanças, contudo, dependem diretamente da redistribuição de renda e do fim das desigualdades imensas entre ricos e pobres. Ai, sim, estaremos prontos para construir uma democracia inclusiva e inter-cultural.

Mary Del Priore, historiadora e sócia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Publicou Histórias íntimas, Planeta do Brasil, 2011, Uma Breve História do Brasil,Planeta do Brasil, 2010, Fazendas do Império, Ediora Fadel, 2010, História do Esporte no Brasil – do Império aos dias atuais. Unesp, 2009, Ao sul do corpo. Unesp, 2009, Corpo a corpo com a mulher. Senac, 2009, Matar para não morrer. Objetiva, 2009, Condessa de Barral. Objetiva, 2008, O príncipe maldito. Objetiva, 2007, Cachaça – alquimia brasileira. 19 Design, 2006, Uma história da vida rural no Brasil.Ediouro, 2006, História do amor no Brasil. Contexto, 2005, História das mulheres no Brasil. Contexto, 2004, Livro de ouro da História do Brasil. Ediouro, 2004, Ancestrais. Campus, 2003, O mal sobre a terra. Topbooks, 2003, Os senhores dos rios. Campus, 2003, Festas e utopias no Brasil Colonial. Brasiliense, 2002, Histórias do cotidiano. Contexto, 2001, Esquecidos por Deus. Companhia das Letras, 2000, Família no Brasil Colonial. Editora Moderna, 2000, Mulheres no Brasil Colonial. Contexto, 2000, Revisão do paraíso. Campus BB, 2000, 500 anos de Brasil.Editora Scipione, 1999, História das crianças no Brasil. Contexto, 1999, Monstros e monstrengos do Brasil. Companhia das Letras, 1998, A ordem dos livros. UNB, 1998, O Canibal. UNB, 1997, Religião e religiosidade no Brasil Colonial. Editora Ática, 1997, Documentos de História do Brasil. Editora Scipione, 1996 e A mulher na História do Brasil. Contexto, 1994

 




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