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Ele dirigia o carro pela avenida larga, voltando para casa e prestando pouca atenção às notícias que o rádio lhe trazia naquele começo escuro da noite, quando o surpreendeu a mulher, parada na esquina, pedindo carona.
O sinal fechado, ela acercou-se à janela do motorista e perguntou até onde ele seguiria.
“É bem no meu caminho.” – comentou a mulher à resposta dele. E, sem esperar por licença, fez a volta pela frente do carro e sentou-se na poltrona do caroneiro. Ele deixou; não era problema dar esta carona.
A mulher entrou no automóvel e o motorista estranhou o seu silêncio reservado, a distanciada altivez com que se deixava levar pelo caminho, sentada como se não estivesse ali.
E os olhos da mulher, percebeu o homem.
Uns olhos cinzas, pétreos, sem brilho.
Ele buscava conversar de quando em vez, perguntar qualquer coisa, apenas tentando vozes que acompanhassem a viagem além do rádio, mas a mulher – contrariando a simpatia que normalmente acompanha os que pedem o favor da carona – respondia com monossílabos, gestos curtos. Parecia incomodada.
E aqueles olhos sem vida.
Depois de certa insistência, o motorista desistiu da conversa: a caroneira não estava para maiores palavras. Apenas deixou que a viagem seguisse em silêncio. Observava-a de soslaio, e não conseguia deixar de incomodá-lo a palidez excessiva da passageira, cujo rosto parecia coberto por uma fina camada de alvaiade, e aqueles lábios de vermelho cortante.
Mas, mais do que tudo, os olhos. Aqueles olhos que não pareciam dizer nada.
No cimo de uma ladeira, quase em frente ao cemitério municipal, a mulher lhe pediu que parasse. Podia descer agora, explicou, ali mesmo estava bom. Não havia casas em volta, observou o motorista.
Ela desceu e ele ficou a observá-la. Aquele silêncio, a brancura insalubre, os olhos sem nada.
“Moça!” – ele chamou, tentando que a pergunta soasse como uma espécie de piada – “Não me diga que a senhora vive aqui pelo cemitério!…”
Ela apenas sorriu fracamente, sem dizer nada, e seguiu caminho.
E ele percebeu, subitamente assustado, que o sorriso da mulher também não tinha vida.