A casa dos avós

Henrique Schneider

Na casa dos avós, as manhãs eram sempre amarelas e plácidas, porque lá não existia mau tempo. Os cheiros todos tinham dono: as uvas fervilhando vinho e doces na parreirinha ao lado da casa, as galinhas alvoroçando suas penas ao redor do milho seco, o galpão e seus mistérios de madeira gasta, o feijão temperando em mágica nas mãos tranqüilas da avó, o quinino chegando às seis da tarde nas mãos de barbeiro do avô. O gato dormia eterno na cadeira estofada da sala e o cachorro latia só por obrigação à chegada das visitas, porque ninguém ruim aparecia por lá. O sol atravessava as janelas brandas daqueles silêncios e derramava seus calores nos lençóis e cobertas das camas serenas, pondo em descanso a bonequinha de porcelana que morava ali. As paredes respiravam quietude e os retratos dos avós, retocados em carmim e assinados como obras de arte que eram, dividiam com a Santa Ceia e o rosário emadeirado o privilégio de serem únicos. Nas tardes de chuva, os bolos fritos ressumavam açúcar em cima do forno à lenha e a jarra de café preto repousava sua doçura pronta no canto da pia, só para os adultos e inalcançável aos olhos infantes dos netos. Mas estes, felizes, recebiam cada um o seu abundante copo de Q-suco de morango ou groselha, o vermelho translúcido refulgindo nos copos cheios, o melhor sabor do mundo a aqueles paladares pouco exigentes. Nas tardes calorosas, o avô cochilava na poltrona enquanto contava histórias para si mesmo, deixando intocado o programa de televisão que teimava em existir, sozinho e azul, por baixo do papel celofane. Quando acordava, contava à avó todos os sonhos, como se eles ainda estivessem ali. Aos domingos – e só aos domingos -, ele tocava flauta e espalhava pela vizinhança, sem pedir licença, o som harmonioso de suas memórias. A avó, nestas horas, cantava baixinho e sem perceber. Logo, também baixinho e sem perceber, começava a chorar. Se algum neto visse este choro em música e lhe perguntasse se estava triste, ela primeiro se surpreendia com as próprias lágrimas e depois respondia que não. Emoção, dizia ela, a mão espalmada no peito. O avô, nesta hora, resmungava algum sorriso e a chamava de fiasquenta. As noites na casa dos avós começava cedo e não ia além da novela. Os netos, quando estavam lá, tomavam um chocolate quente antes de escovarem os dentes. Depois, a avó esculpia uma trouxinha de cobertas em volta dos netos e nenhum frio entrava naquela cama, até a manhã seguinte.

Na casa dos avós morava a alegria.




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