A Casa

REVISTA E  – Nº 29
David Oscar Vaz

“Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.”
(A Casa de Asterion, Jorge Luis Borges)

A noite estava quente apesar da chuva da tarde. O homem penetrou no jardim da casa, sentou-se ao lado da cerca viva lateral e fez de um grande tronco o escudo que o ocultava dos olhos da rua. Nessa posição, seus pés se empapavam numa poça amarela. Os outros chegariam logo, pensou não sem alguma resignação e algum medo. Mais uma vez, mas agora em condições menos tranqüilas, ele veio ver a casa. Seus olhos buscaram a porta lateral. Devia estar aberta, e isso era mais que um pressentimento. A casa toda penetrava-lhe pelos olhos. A vista foi escalando os andares superiores, os pavimentos haviam de ser três ou quatro irregulares, as janelas tinham formas ogivais e as paredes, silenciosas e cinzentas. A falta da luz do sol e o medo desvaneciam-na.

Euclides aspirou com dificuldade o ar úmido da noite e, como se esquecesse de sua condição de fugitivo, fechou os olhos.

Continuou a ver a casa projetada na escuridão das pálpebras. Quando foi a primeira vez que a encontrou? Não sabia e, às vezes, duvidava que tivesse havido uma primeira vez. A casa lhe era imprescindível. Vinha vê-la de quando em quando e dali, do outro lado da rua, petrificado ao muro, deixava-se ficar por muito tempo a riscar com os olhos suas exatas linhas. Os moradores? Nunca os vira, mas o jardim estava sempre bem tratado e, à noite, a casa iluminava-se com discrição.

Você é um sonhador! – disse para si, repetindo a frase que alguém certa vez dirigiu a ele. – E um idiota também – completou.

Encheu os pulmões como se quisesse engolir a noite. Pensou na prisão e repetiu a jura de nunca voltar para lá; pensou no crime que lhe imputaram e na sua inútil defesa; pensou no vazio que havia em sua memória da noite do crime. Nem quando lhe relataram os detalhes ele se lembrou de nada. Aceitou-se criminoso como aceitava a comida que lhe davam na prisão: não se tratava de uma escolha. Amargou cada longo dia dos dias que lhe faltou a liberdade; não compartilhou com nenhum colega de aflições, nenhuma dor íntima.

Ao sair, e isso foi há algumas semanas, atirou-se a vingar todo o tempo perdido. Queria expandir-se, queria ser do tamanho de uma noite de liberdade. Bebeu com muitos homens, deitou com muitas mulheres, foram tantos e tantas que agora todos os rostos se confundem e, na vontade de lembrá-los, perdem-se. Brigou algumas vezes, feriu; chegou ao roubo. Em uma noite, entregou à polícia um amigo; em outra, meteu três tiros num soldado da Rota, contribuindo, assim, para o nascimento de um herói e de um desejo de vingança entre colegas de farda. Estava perdido e, agora, ali no jardim, sabia que de tempo só lhe restavam migalhas.

De repente, um ruído próximo. Debaixo de uma jardineira, a uns quatro metros, algo se moveu. Euclides puxou o revólver para perto do peito, firmou a vista e o punho. Não era nada, só um mendigo, um farrapo de humanidade mergulhado em seu sonho. Coçou-se, falou algo numa língua incompreensível e silenciou. Euclides olhou-o com repugnância, no fundo com inveja.

Euclides notou que havia muita luz entre o local em que estava e a porta lateral. Numa corrida seria um alvo fácil, se bem que sabia correr muito bem, tinha as pernas de lobo guará, como dizia a avó. Isso trouxe-lhe uma recordação antiga. Houve um tempo, quando menino, em que tinha de levar marmita para o pai e não foram poucas as vezes que teve de fugir de outros meninos. Nunca o pegaram. O pai na época já era um velho; tolerado por uma imobiliária, passava os dias em mansões à espera de possíveis compradores. Quando estes apareciam, mostrava-lhes a casa e punha-os em contato com os corretores de verdade. Vendida a mansão, deslocavam-no para outra. Euclides pensou com alegria nesse tempo que lhe parecia estranhamente pertencer a uma outra vida. Esperava que o pai terminasse de almoçar; esperava que, como sempre, o pai lhe contasse uma estória. E eram as aventuras do Barão e seus amigos extraordinários, ou as desventuras de uma criatura meio homem e meio touro, preso num labirinto que era também sua casa. Depois, quando o pai lhe permitia, ia percorrer as escadas e os cômodos; inventava então outro Euclides com quem brincava numa cozinha ou corredor, com quem conversava em algum pátio. Um dia tudo isso terminou. O menino chegou com a marmita e encontrou o pai deitado na sala. Aproximou-se, pôs-lhe o dedo na testa para acordá-lo, mas a testa estava fria.

Enquanto recordava, a tristeza empurrara outros sentimentos e ombreava-se agora somente com o medo.

Outro barulho lembrou-lhe do perigo; logo estariam em cima dele. Estava cercado e já podia ver no escuro mais escuro dos olhos cerrados o piscar medonho das viaturas. Foi então que o mato mexeu ali e aqui e um cão ladrou perto. Abaixo do pomo-de-Adão pulsou involuntária a tenra carne do pescoço. Era a hora. Apenas alguns minutos haviam se passado desde sua entrada no jardim, e a vida toda parecia caber ali. Não podia mais lembrar: era a hora! Euclides enfiou o que pôde de coragem dentro de si e ergueu-se num salto. Pulou para a perigosa zona de luz e começou sua corrida em direção à porta lateral. Havia de conseguir, mas, mal tinha dado o segundo passo, sentiu a terra deslizar sob seus pés. Todo seu corpo tocou o solo sob terríveis estrondos e uma horizontal chuva luminosa de disparos. Pressentiu que era o fim. No chão ouviu próxima uma voz gutural e absurda, era o mendigo apanhado no meio do corredor entre o sono e a vigília. Viram o pavor um nos olhos do outro. Mas os tiros prosseguiam e um novo salto levantou Euclides, colocando-o de volta na corrida. Tinha as pernas de lobo guará, como dizia a avó, e correu no limite do possível; nunca o pegariam, venceria de novo. Sua mão chegou à maçaneta, girou-a, entrou.

Prendeu a porta com o corpo. Conseguira. O rosto estava gelado e úmido, as pernas bambas, os sentidos querendo deixá-lo.

Controlou-se. Era um milagre a porta estar aberta, aceitava-o como aceitava o fato de não estar ferido. Muito barro, restos de grama, mas nenhuma mancha de sangue, nenhum arranhão, nada. Persignou-se. Notou, no entanto, uma falta inconsolável: o revólver.

Perdera-o na corrida. Sentiu vontade de rir, como podia ser tão estúpido! Paciência; estava vivo. Do lado de fora, agora, era o silêncio, um estranho silêncio. Euclides olhou em volta e a casa parecia deserta. Aceitou feliz mais este pequeno milagre sem ponderar. Pareceu sentir um fresco cheiro de incenso, as paredes tinham a cor creme e uma luz frouxa predominava em toda a parte. Intuiu a existência de uma escada à esquerda, encontrou-a. Quis saborear cada instante da casa, mas ainda não se permitia.

No segundo andar, olhou pelo canto de uma janela e respirou mais tranqüilo: tudo estava em paz, nada que revelasse uma iminente invasão. Ao lado de uma viatura com as portas escancaradas, dois guardas conversavam. Noutro ponto, havia um número maior de fardas. Euclides estremeceu com o que viu. No meio dos guardas, no local onde ele há pouco caíra, havia um homem morto.

Alcançou outra janela menos míope, um policial levava sua arma enlameada para aquele que parecia ser o superior, outros carregavam o corpo. Quando chegou a outra janela, já haviam jogado o corpo para dentro do camburão e preparavam-se para partir.

Uma ruga cravou-lhe na testa. Uma idéia horrível passou-lhe por dentro, mas ele a repudiou. Subitamente arregalou os olhos e teve vontade de pular de alegria: o mendigo. E parecia ter voltado a ser criança: o mendigo morrera no seu lugar! Era isso; só podia ser isso! Alimentou a idéia com carinho e ela o bastou. Os homens foram embora; não havia mais com que se preocupar, estava cansado, mas feliz.

A casa agora era só sua. Numa sala do segundo andar, rodopiou e dançou, numa outra do terceiro sentiu que podia voar. Por fim, sentou-se diante de uma ampla janela. Olhou as piscantes luzes da cidade e tudo era bonito. Saboreou a leveza dessa eternidade.

As luzes eram mesmo muito bonitas. O pensamento rejeitado há pouco arrumou um jeito de voltar, mais uma vez Euclides o mandou embora. Era um pensamento mau, uma idéia feia de que talvez nada daquilo fosse real, que talvez ele tivesse inventado outro Euclides e o colocado ali sentado em frente à janela, enquanto de verdade agonizava no fundo escuro de um camburão.

Afastou este pensamento triste e, carregado de felicidade, deixou cair as pálpebras e dormiu… dormiu profundamente.




*nome

*e-mail

site ou blog

comente a postagem :: tentativas de contato por comentário serão bloqueadas