A criatura por @EdsonAran

por Edson Aran

Ou: “O Prometeu e Não Cumpriu” Moderno

O assistente corcunda, Marco Aurélio, foi o primeiro a avistar os camponeses carregando tochas no meio da floresta.
“Mestre… mestre… os aldeões estão chegando! Temos que salvar a criatura!”
“Meu querido Marco Aurélio, deixa comigo”, respondeu o mestre, dirigindo-se para a varanda do castelo.
Lá em baixo, os aldeões estavam inquietos.
“É ele! Vejam! O homem que criou a criatura abominável! É ele!”
“Meus queridos, qual é o pobrema de vocês?”, perguntou o homem na varanda.

O líder do grupo de aldeões gritou:
“Você criou uma criatura sem alma que é uma afronta às leis de Deus e à ordem natural das coisas! Não agüentamos ver esse ser horroroso percorrendo aldeias para inaugurar obras inacabadas!”
O homem no castelo alto respirou fundo. Então disse:
“Meus queridos, a criatura nunca fez mal a ninguém. Ela só cuida das obra que nunca fizeram antes na história desse país. Veja você, meu querido aldeão… não, você não… você aí, de camisa verde… você, meu querido aldeão de camisa verde, pode ir à Floresta Negra, pode ir aos Cárpatos, pode ir à Transilvânia… você nunca viu tanta obra! E nós vamos continuar inaugurando obra porque a nossa grande obra é inaugurar inauguração!”

Um aldeão arriscou umas palmas, mas os demais olharam feio pra ele. Outro deles, o que usava camisa amarela, encarou o homem no castelo e disse:
“Mas a criatura assusta as crianças…”
Mais um aldeão tomou coragem:
“E é feia pra cacete! Ninguém mais sai de casa com medo de topar com ela no escuro!”
Um terceiro acrescentou:
“E ela é chata! Quando começa a falar, todo mundo dorme…”
Veio mais um:
“Ela apareceu no carnaval e todo mundo parou de sambar. Quer dizer, de dançar polca.”
Os aldeões começaram todos a falar ao mesmo tempo:
“É isso aí! Abaixo a criatura! Criatura fora já! Nós não gostamos da criatura!”

O homem no castelo ergueu as mãos e pediu calma:
“Meus queridos, eu podia soltar a criatura em cima de vocês agora, mas o vírus da paz mora dentro de mim desde que eu peguei ele num puteiro em São Bernardo. É por isso que eu prometo uma coisa pra vocês: na próxima pesquisa que fizerem com vocês, 50% de vocês vão amar a criatura e 50% de vocês vão querer amar a criatura e 50% de vocês vão dizer que amar e perder é melhor do que nunca ter amado!”
O aldeão de camisa amarela colocou a tocha debaixo do braço, contou os dedos e falou:
“Opa, peraí, mas aí são 150%!”
“Meu querido, mas é o que eu digo: o país cresce tanto que 100% agora já é 150% e é pra continuar crescendo que vocês precisam agüentar a criatura”.

Os aldeões perceberam que não adiantava continuar a conversa. Acabaram se convencendo meio a contragosto de que a criatura era gente boa e se mandaram. No meio do caminho já estavam até felizes.
Marco Aurélio, o corcunda assistente, disse:
“Mestre, o senhor é um gênio! É um tocador de obras, um grande comunicador e ainda consegue dar vida a tecidos mortos!”
O homem olhou feio pro corcunda e falou:
“Olha aqui, meu querido Marco Aurélio, puxar o saco, tudo bem. Mas me chama de costureiro de novo que eu te enfio a mão na cara…”




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