A ditadura arreganhagada @EdsonAran

por Edson Aran

Da série: “Nunca antes na história desse país”

Alguns chamam o período de a Grande Depressão. Outros de o Grande Incêndio de Londres. E há até quem se refira a ele como o Grande Terremoto de São Francisco. Mas para os homens e mulheres que viveram e morreram naquele momento histórico, ele será para sempre lembrado como a Ditadura Militar Brasileira.

Tudo começou em março de 1964 quando militares e políticos de direita se aliaram a dois ou três orangotangos e depuseram o presidente Django Goulart (1917-1865). Django partiu para o exílio jurando vingança, mas desistiu quando ganhou o papel principal num western spaghetti de Sergio Scorbutto, “Django, l’Uomo della pistola picolina”.

Enquanto isso, no Brasil, a resistência contra a ditadura tomava conta dos corações e mentes. Organizações como UNE, DUNE e TE mobilizavam a população em caudalosas manifestações, enquanto os militares faziam ampla campanha para recrutar torturadores.

O economista Francis Ferdinando Fukuyama analisa assim o período: “Todos criticam a ditadura, mas ninguém fez mais pelo aprimoramento da tortura do que ela. Antes de 64, um torturador que terminasse a universidade de Desconstrutivismo e Violência Descerebrada Aplicada não encontrava colocação no mercado.”

De fato, o regime militar impulsionou a indústria de paus-de-arara e maquininhas de choque, transformando empresários em milionários da noite para o dia. Ou melhor, do dia para a longa noite da ditadura.

Mas nem todos eram felizes. O cantor-compositor- músico-pensador-intelectual-madrinha-de-bateria-poeta Caetano Veloso teve de se exilar em Londres. No livro “Vaidade Tropical – O mundo fui eu quem fez”, ele conta que, nos anos 70, foi obrigado a voltar ao Brasil e a se apresentar na rede Globo para demonstrar que reinava a normalidade no país.

“Os militares me pegaram no aeroporto e me levaram pro programa do Chacrinha”, narra o cantor-compositor-músico-etc. “Me obrigaram a cantar e a rebolar com as chacretes. Depois me levaram ao Leblon e me obrigaram a tomar banho de mar. Depois me levaram ao Copacabana Palace pra tomar champã. Depois me levaram pra Bahia e me obrigaram a pular os 477 dias de carnaval. Foi horrível.”

Outros intelectuais, no entanto, fizeram carreira nos anos de chumbo. O cantor Chico Buarque de Hollanda, por exemplo, não conseguia emprego graças à sua voz nasalada, tendo de ganhar a vida como figurante fanho em anedotas populares. Mas ao se posicionar frontalmente contra os militares, ele escalou as paradas de sucesso com versos como: “ãi, anfasta de im ensse ânlice, ãi” ou “oncê ão onsta de im, mans sua inlha onsta”.

Alguns, entretanto, levaram a coisa a sério. Vários militantes de esquerda decidiram que a resistência armada era a melhor maneira de enfrentar a ditadura. Os oito fizeram uma vaquinha, compraram uma espingarda de chumbinho e saíram numa kombi para derrubar o regime.

Mas no meio do caminho o grupo se dividiu em oito tendências fratricidas: OBA (Organização Bakuninista Autoritária), CHUPA (Comunistas Heterossexuais Unidos Pra Arrebentar), SOCA (Socialistas Operários Carentes e Armados), FODA (Frente Operária Declaradamente Arrivista), TREPA (Transexuais Revolucionários Elitistas Pan-Anárquicos), OMNSG (Organização Materialista Nossa Senhora das Graças), OMNSG do B (Organização Materialista Nossa Senhora das Graças do Balacobaco) e FBSN (Frente Bossanovista de Salvação Nacional). A bagunça dentro da kombi chamou a atenção da ditadura, que acabou guinchando o veículo pra Ilha Grande.

Enquanto isso, a pressão nas ruas crescia, levando ao movimento pró-eleições diretas. As diretas não passaram no Congresso, que, no entanto, elegeu como presidente o oposicionista Tancredo Neves, vitimado por uma infecção hospitalar de direita. Em seu lugar, tomou posse o vice José Sarney, oligarca que ganhara o Maranhão e metade do Pará num jogo de truco com um boto tucuxi.

Sob Sarney, o Brasil caminhou, enfim, para a normalidade democrática. Foi quando o país foi invadido por alienígenas canibais do espaço exterior. Mas isso é já é outra história.




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