A guerra das farmácias

por Henrique Schneider

As duas farmácias, uma ao lado da outra, naquela mesmice e disputa de esperar os doentes entrarem, até que o gerente de uma delas teve a idéia para derrubar a concorrência; colocou, em frente ao estabelecimento, um propagandista. Alguém que chamasse os transeuntes e propagasse as grandes vantagens, preços e condições nos remédios que lá eram vendidos.

Mas a farmácia ao lado resolveu que não era possível ficar para trás. Então também colocou em frente à sua porta um propagandista, com um megafone. Os chamados do homem alcançavam a outra quadra, e mesmo quem não tivesse qualquer interesse ficava informado dos preços maravilhosos daqueles remédios.

A primeira farmácia achou que era necessário devolver à altura. Colocou não apenas um, mas dois propagandistas, ambos vestidos de palhaços e empunhando microfones sem fio, de alta potência e alcance. Sabe-se lá o que palhaços têm a ver com farmácias, mas o fato é que aquela dupla chamava a atenção de toda a vizinhança, com seus gritos desafinados e palhaçadas sem graça.

Ninguém me deixa para trás, disse o gerente da segunda farmácia, enquanto instalava a banda marcial em frente à loja, vinte e tantos músicos engalanados em seus uniformes e tocando o tempo inteiro a mesma música, num conjunto de sopros e percussões, no qual se destacavam em volume os pratos e o trombone. O caminho dos pedestres até podia ficar um pouco apertado, pensou ele, mas concorrência é concorrência.

Hoje pela manhã, o gerente da primeira farmácia instalou na calçada a sua mais recente cartada nesta guerra: um grupo de operários, furando as lajes a torto e a direito com suas britadeiras. Está certo que as britadeiras não têm um som muito atraente e até agora não conseguiram associá-las à venda de nenhum remédio em especial, mas o que importa é que conseguiram calar o barulho da orquestrazinha chinfrim de logo ao lado.

O gerente da concorrência, zonzo com os estrondos da farmácia vizinha, só pensa no revide para amanhã.

Enquanto isso, a campanha parece que está dando mais ou menos certo: os remédios em geral até que não têm muita saída, mas a vizinhança acabou com os estoques de remédios para dor-de-cabeça e contra estresse.




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