A história

por Henrique Schneider

Ainda que houvesse entre eles alguma diferença de idade, eram, os dois, amigos há muito tempo. Alguns interesses bons os aproximavam: a arte, velhas raridades, a vida. Um era escritor; o outro adorava contar histórias. Quando se encontravam, festa mesmo em filas de mercado, o escritor mais ouvia do que falava, enquanto o amigo ia desfiando histórias e mais histórias, rosário interminável de fascínios bem contados. Geralmente demoravam, tais contares, mas não porque fossem longos, e sim porque eram eles interrompidos, a cada tanto, por um ou outro amigo que passava e parava para cumprimentar, conversar um tanto – os dois queridos, eles.

Mas havia uma história do amigo que era especial. E toda ela verdadeira, pronta para virar livro. A narrativa de um antepassado, imigrante que chegara da Alemanha ainda nos dias finais do século retrasado. Era uma epopéia, se entusiasmava o amigo, o conto pronto para um livro de sucesso – e os olhos do escritor brilhavam, então. A travessia de navio em mares e mares que não cabiam num só olhar, a terra grande recém descoberta pelo coração estrangeiro, o desbravamento, os medos, os deslumbres, as alegrias. Precisamos escrever isso juntos, dizia o amigo. A cada vez que se encontravam, prometiam esta tarefa um ao outro.

Mas não a escreviam. Ambos mergulhados nas luzes tranquilas da rotina, um inventando contos e romances e o outro se dedicando alegremente a devolver sorrisos a crianças, a verdade é que nunca a escreviam. Talvez porque os outros projetos sempre chegavam antes, mas também talvez porque aquela história fosse entre eles uma espécie de código, o assunto sempre para o próximo encontro.

No último sábado, se encontraram rapidamente, carregados ambos de sacolas de compras. Abraçaram-se ligeiro, meio apressados, e o amigo lembrou, talvez pela milésima vez, que ainda precisavam escrever juntos aquela história. E o escritor, também talvez pela milésima vez, concordou.

Naquela madrugada, o amigo teve um enfarte.

Mas a história ficou; ainda está aí para ser contada.

E talvez agora já sejam duas.




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