A hora certa para pedir perdão

por Henrique Schneider

Nunca mais, pensa Jerônimo, nunca mais. A primeira coisa a fazer quando chegar em casa é dizer à Lara que a ama, depois pedir-lhe perdão. E depois nunca mais.

Até agora não sabe o que foi que aconteceu. A discussão boba que tiveram no café da manhã, motivo perdido atrás das horas, o volume das vozes aumentando sem razões, os xingamentos indo além do que deveriam, palavras que mais adiante não se recolhem  e permanecem como marcas grudadas nos anos que seguem. Quando viu, estava levantando, a xícara de café ainda pela metade, na mesma hora em que Lara também se erguia – os movimentos parecendo desafios do nada, provocações. Quando se encontraram, ambos desatinados sem motivo, ele a empurrou.

Ele havia empurrado Lara. Havia empurrado a mulher de sua vida. (A primeira coisa a fazer é dizer que a ama, aos gritos; depois, pedir-lhe perdão, também gritando – é preciso que os vizinhos também saibam de seu arrependimento.)

Ela se desequilibrara, batera com a perna na quina da mesa e depois caíra. Vagarosamente, como se ensaiasse um passo de dança e também como se não acreditasse no que recém acontecera, Lara fora ao chão. E ele sequer a havia auxiliado a levantar. A mulher de sua vida espalhada no chão, olhando-o com um olhar cuja fúria era tanta que sequer conseguia mover-se – e ele passara ao largo. Pegara a pasta e fora ao trabalho.

(Gritar à Lara que a ama e pedir perdão. Depois, dizer que nunca mais fará isso. Nunca mais.)

No escritório, percebera a bobagem feita, o DESATINO de ter agredido a mulher com quem queria passar o resto dos seus dias, e se sentira o último dos homens – talvez fosse. Tentara ligar para a mulher, uma, duas, três, tantas vezes, mas ela não atendia o telefone. Depois, o sinal era de aparelho desligado. Jerônimo passara o dia inteiro em angústia, um arrependimento quase físico, a mortificação de ter feito algo que só canalhas fazem. Só canalhas fazem isso, repetiu, e eu não posso ser um canalha.

Só canalhas batem em mulher.

Ele agora estaciona o carro na garagem do edifício e corre ao elevador. Tem esta pressa arrependida de chegar em casa o quanto antes apenas para gritar aquilo que deve dizer todos os dias e pedir perdão pelo DESATINO: não era ele a fazer aquilo, certamente não era, Lara o conhece bem para saber que não era ele e irá perdoá-lo.

Mas quando ele chega em casa, o bilhete seco no sofá da sala é testemunha de que já não há o que dizer.




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