A coisa mais sem tento da tonta da reforma
por Edson Aran
A reforma ortográfica está na moda, mas é coisa que nem me incomoda. A língua, língua mesmo, língua de verdade, ganha vida é na cidade, nas ruas, deixando palavras nuas, percorrendo expressões de cima a baixo, canibalizando estrangeirismos e deletando barbarismos.
Só um troço me irrita: a ideia sem acento. Uma ideia sem acento é coisa sem tento, uma ideia aérea, um devaneio sem esteio. Sem acento, a ideia não se acenta. Tenta, inventa, mas não acrescenta. Polemiza, mas não se concretiza.
Ideia precisa ser concreta ou fica pateta feito letra do Djavã. Tola, confusa e vã. É o acento que torna a ideia aguda, talvez arguta, venenosa como um copo de cicuta.
Onde já se viu ideia sem acento? Coisa mais sem talento: deixar a palavra completamente afônica sem uma sílaba tônica! Uma ideia platônica. Os acadêmicos se excitam colocando e retirando acento, mas, convenhamos, foi uma idéia de jumento.
Lamento, mas é a ideia que move o mundo. Merecia mais respeito desse bando de vagabundo. Ideia sem acento é uma ideia atéia, à toa, plebéia. Não voa. Basta olhar e comprovar: a palavra não fica boa.
Agora escrevemos tudo igual, ainda que muito mal. Um e-mail de Macau pode ser lido na Guiné-Bissau. Angola, Goa e Broa. Timor, Torpor e Estupor. Cabo Verde, Sargento Azul e Coronel Mostarda. Mandrake, Lotar e Barda. Bulhões, Camões e a Quinta dos Cagalhões.
Mas nunca – jamais – as ideias serão iguais. Acadêmicos do Brasil e de Portugal: mexam na língua, já que não podem mexer o pau. Mas devolvam à idéia, o acento. O resto? Mudem a contento. Isso eu até agüento. Não mexam, porém, no que vocês não têm: a ideia é nossa e de mais ninguém.
Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.