Cristóvão afastou-se do teclado do computador e não pôde deixar de pensar que alguma coisa muito estranha andava acontecendo. A trama pensada, o conto com início, meio e fim por ele planejados, simplesmente não estava aparecendo. Parecia, naquela manhã difícil, que a história se negava a ser escrita: o pesadelo maior do escritor.
Desde o início, ele havia estabelecido em seus rascunhos tristes: Poliana ficaria com Marcos e Gregório, desatinado por este amor mal correspondido, acabaria com a própria vida dando-se um tiro nas têmporas, bem em frente à mulher amada. Um dramalhão mexicano – mas era isso o que Cristóvão queria. O que sua mão de escritor havia decidido.
Mas não era isso o que agora acontecia nas páginas abertas do computador: enquanto Marcos se criava cada vez mais como um bocó irremediável e que não conseguia aproveitar nem seduzir a bela mulher com que o escritor o havia presenteado, Gregório parecia usar todas as suas qualidades para conquistar o coração literário de Poliana. E esta se rendia cada vez mais aos encantos do amado, entre um bocejo e outro nos intermináveis jantares românticos aos quais era convidada por Marcos, antecipadamente preparados nas anotações do autor.
A vontade de Cristóvão não conseguia acontecer. Gregório e Poliana, ousados e cheios de paixão, já começavam a planejar uma vida inteira juntos, deixando Marcos sozinho com seus jantares e o escritor imerso em sua impotência criadora.
A insolência destes personagens, pensava Cristóvão, olhando sem saber o que fazer para a tela do computador. O que mais estariam planejando estes loucos, imaginava ele, fechando os olhos para pensar em alguma solução.
Enquanto isso, percebendo os olhos fechados de seu autor, Gregório pegou o revólver na escrivaninha das páginas do conto: a bala com que Cristóvão lhe planejara o futuro ainda estava lá.