A roupa nova do imperador

por Bolívar Torres
Jornal do Brasil / Data: 23/11/2008

Livro sobre condessa de Barral mostra como a amante influenciava dom Pedro II até no vestir

Erudita, cosmopolita e liberal, Luisa Margarida Portugal e Barros, a condessa de Barral, destoou das mulheres de seu tempo. Filha de um diplomata que lhe garantiu educação privilegiada e bicultural, sustentava posições avançadas para o século 19: era abolicionista convicta e escolheu seu próprio marido. Acima de tudo, representou a velha máxima de que por trás de todo grande homem há uma grande mulher: ela foi a maior paixão de dom Pedro II, influenciando o imperador até o fim de sua vida. A trajetória de Luisa Margarida e de seu amante ilustre ganha uma nova perspectiva em Condessa de Barral, da historiadora Mary Del Priore, que joga luz sobre a vida íntima da realeza brasileira.

– A imagem de dom Pedro II no livro não é a do político, do estadista, e sim a de um homem em sua intimidade – observa Mary. – Ao contrário do que muitos historiadores apresentam, era um indivíduo tímido e reservado. Sempre digo que, para o imperador, a condessa de Barral foi uma janela para o mundo. Ela conhecia na prática tudo aquilo que ele lia em livros. Tudo o que ele gostaria de ver, sejam cidades ou museus, ela já visitara na Europa.

Misturando um estilo descritivo levemente romanceado com o rigor da pesquisa histórica, o livro se baseia principalmente numa descoberta inédita da autora: o diário de juventude de Luisa Margarida, encontrado nas gavetas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Muitas das cartas mais picantes da correspondência entre a condessa e dom Pedro II foram queimadas pelos próprios. Apesar de o caso extra-conjugal ter vindo à tona depois do episódio do roubo das jóias da imperatriz – gerando até cantigas populares maliciosas – ambos faziam o possível para mantê-lo na mais absoluta discrição.

– A condessa não foi apenas uma amante, ela foi a grande paixão do imperador – diz Mary. – Até o fim da vida, dom Pedro II ficou dependente do amor dela.

Casada com um francês, o conde Barral, Luisa Margarida sentia culpa pela traição. Mas a relação entre ela e o imperador estava longe do imediatismo carnal dos nossos dias. Vivendo no período vitoriano, extremamente conservador, os dois se aproximaram de forma lenta através de sinais de corpo e toques sutis. Numa época em que “uma leve pressão no pé poderia significar um orgasmo”, a perspectiva da conquista era prolongá-la ao máximo.

A condessa era preceptora de Isabel e Leopoldina, as filhas de dom Pedro II, além de dama de honra da princesa Francisca, irmã do imperador. Aos poucos, foi ganhando o pensamento do amante. Mesmo sendo um erudito, amante dos livros, dom Pedro II tinha modos grosseiros, vestia-se mal para os padrões da corte européia, e a convivência com a condessa ajudou-o a melhorar seu trato social.

– Era, como os franceses chamam, um amour de tête (amor de cabeça) – define a historiadora. – Os dois viveram uma paixão intelectual, baseada em idéias e afinidades de espírito. Ela insistia para que ele melhorasse sua apresentação para representar com mais dignidade o Brasil lá fora.

Monarquista e abolicionista

Mulher emancipada que sempre escolheu seus caminhos, Luisa Margarida foi um contraponto extraordinário ao estilo de vida da imperatriz Teresa Cristina, obediente à condição feminina da época, cuja essência era a renúncia. A influência da condessa sobre o imperador, porém, não chegou a alterar os rumos do país.

– É uma pena que a influência de Luisa tenha tido pouca aplicabilidade no Brasil – avalia a historiadora. – Ela acreditava que o Brasil tinha que se destacar como uma nação pioneira. Era uma figura típica do século 19: monarquista convicta, mas podia conjugar idéias liberais com tradições aristocráticas. Acreditava que o povo precisava de educação e lutava contra a escravidão. Várias vezes implorou ao imperador: “Não traga essa mancha para o país”.

Mary acredita que a imagem de dom Pedro II pode mudar com a publicação do livro. Na semana passada, um homem se dizendo bisneto bastardo do imperador ligou para a autora, apresentando-se como a prova de que o estadista cultivava o hábito de manter relações sexuais com moças pobres. – As figuras históricas não se exaurem. Acredito que cada passo de um historiador é um mosaico. Cada pesquisador põe uma pedra a mais e acrescenta uma nova perspectiva à compreensão histórica.




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