A Urna de David Oscar Vaz

Notas acerca do livro de contos a URNA, de David Oscar Vaz
temas: Literanário – Ensaio
Paulo José Miranda
Março de 2006

“A CASA”

“A Casa” acaba connosco. Acaba connosco a recolhermo-nos ao cérebro e a perguntar: é verdade ou não? E, com esta pergunta, voltamos atrás no canto, atrás no texto. Talvez seja esta a mestria dos grandes contistas: a capacidade de nos fazer voltar atrás, sempre para trás. Voltar atrás, perguntar se é verdade ou não, aqui, não é do foro dos factos, nem tão pouco ontológico. Voltamos atrás e perguntamos pela veracidade estética do conto. Independentemente da sua veracidade ontológica. A factual é que não é sequer p’r’aqui chamada. Verdade factual interessa tanto ao conto como a água interessa ao vinho. Conto bom, dá à ré! Tão contrário ao romance, com a sua seta afiada em direcção ao futuro do tempo! Ainda que continuemos o romance, depois dele acabar, não voltamos atrás, pelo contrário, vamos para a frente. No fim de um romance, o que ficou para trás não causa perplexidade. No fim do conto, é o que já lemos que causa perplexidade, isto é, o que lemos e que agora se nos é revelado como “se calhar não lemos”. Este conto, de David Óscar Vaz, de apenas meia dúzia de páginas, mostra de um modo extraordinário a peculiar arte do conto. Independentemente do seu conteúdo, excelente, de resto, é na sua formalidade que encontro a razão que me faz começar por ele, nesta curta apresentação deste livro.

“A URNA”

Conto que dá título ao livro e com o qual se começa. Tem a particularidade de se centrar num tempo muito anterior ao nosso: há um século atrás. E, talvez por essa mesma razão, a comparação com a tradição machadiana torna-se inevitável. Sem dúvida, lembra Machado no seu melhor. Lembra Machado, no seu melhor, no uso preciso da linguagem; preciso das metáforas, preciso como um relógio, e é tão difícil acertar uma metáfora; no uso preciso do ritmo; no uso preciso dos desequilíbrios narrativos, no uso preciso da lei universal do conto (pelo menos desde Edgar Allan Poe): o que é dado por certo ao leitor, no início, é directa e proporcionalmente retirado no fim. Por conseguinte, uma vez mais, ao terminarmos a leitura do texto, todo o conto é posto em causa. Lá vamos nós outra vez para trás à procura de onde nos enganámos, de onde nos deixámos enganar.

“TALAGARÇA”

Este é um conto dentro de um conto. Sem dúvida, uma técnica clássica de narrativa. Mas difícil é sustentar o clássico na contemporaneidade, como uma mulher que entra hoje num clube nocturno vestida como nos idos anos vinte do século passado e, ainda assim, ninguém consegue tirar os olhos dela; não por excentricidade, mas precisamente porque ela e o vestido fazem todo o sentido. Quem ainda não viu uma mulher assim, nunca viu uma mulher. Pois, estou convicto de que, somente nas revelações em contra-posição se chega realmente a ver alguma coisa. Depois, o conto antes mesmo da sua formalidade clássica, começa com uma frase pré-clássica, isto é, uma frase antes do conto, antes do clássico, antes dos espartilhos de género literário. O conto começa assim: “Você pergunta se eu acredito em fantasma! Mas, se veio me procurar é porque já sabe a resposta.” Para as senhoras e os senhoras mais familiarizados com a obra de Platão, torna-se claro o ponto de vista da reminiscência. Reminiscência, porque já trazemos em nós uma resposta daquilo que perguntamos, isto é, já trazemos em nós um conhecimento prévio daquilo que desconhecemos. Mostremos um pouco melhor àqueles menos familiarizados com Platão. Imagine-se um homem que chega de Portugal a São Paulo e pergunta onde fica a Avenida Paulista. Ele pergunta por algo que não desconhece de todo, embora não saiba disso, claro. Ele não sabe onde fica, mas sabe que fica em São Paulo e que se trata de uma avenida, e não que fica “não sei onde” e que se trata “de uma qualquer coisa”. Ele pergunta, não por aquilo que desconhece de todo, mas por aquilo que vislumbra. Ora, e o que é um vislumbre senão um fantasma. É o próprio Platão que diz que há fantasmas, ao afirmar que se sabem coisas em forma de simulacro. Simulacro em Grego Antigo é precisamente phantom (fantasma). Assim, todo aquele que pergunta, pergunta por um fantasma, pergunta por aquilo que o assombra, isto é, pergunta pelo conhecimento que deseja. E só se deseja o que não se tem, mas que, de algum modo, lhe acedemos, que vemos, nem que em sonhos. Por conseguinte, DOV (David Óscar Vaz) começa o seu conto com um projecto iminentemente platónico. Correcto será dizer: com um projecto de filiação a Platão. De qualquer modo, e a apesar da profundidade do seu início, trata-se de um conto e não de um texto filosófico. Por isso mesmo, a terceira frase é: “O que você quer saber é da minha estória, não é?” DOV não pretende enganar o leitor, vendendo gato por lebre, dando conto por filosofia. DOV engana-nos apenas na justa medida do que nós merecemos; na justa medida de cada um como leitor. E quanto mais treinado, mais enganado. Todo o texto que vale a pena ser lido trai o seu autor, põe-lhe os cornos, é sabido, mas neste caso particular o texto também põe os cornos ao leitor. Pois, durante toda a narrativa do conto, o leitor fica preso aos acontecimentos relatados, à relação entre aquele que relata e a sua falecida mulher, mas na verdade, no final, leva com um grande par de cornos, isto é, no final explode todo o sentido formal deste conto: “Às vezes penso que o fantasma seja eu, preso a minha casa e ao labirinto das minhas lembranças. Já tem minha estória, moço. Agora, aperte minha mão.” Terá sido coincidência o autor terminar o livro precisamente com essas duas frases, não apenas o conto, mas o livro? Parece-me pouco provável. Em relação ao conto, a transladação do fantasma para o próprio, recupera o sentido original de Platão e das primeiras duas frases do conto, à revelia de toda a narrativa. O fantasma não é ninguém senão o próprio. O fantasma não é ninguém senão a reminiscência que nos habita, que nos enforma. Mais: é o fantasma que escreve contos. É o fantasma que escreve poemas. O filosofo é precisamente o caça-fantasmas, aquele que ambiciona e esforça-se por estar acima do seu próprio fantasma; ele luta contra o fantasma que é. O escritor, não. O escritor assume a sua condição de fantasma. O escritor diz: Platão você tem toda a razão, mas eu não consigo ser de outro modo, não consigo ir para além do meu fantasma. Mas, e isto parece-me evidente, quem escreve as frases que escreveu neste conto, tem consciência clara e aguda disto mesmo. Entre a verdade e a verdade há uma estória. A estória que é narrada no conto intromete-se entre a verdade das primeiras frases e a verdade das últimas. De qualquer modo, e isto parece exemplar neste conto, a estória é sempre uma reminiscência, uma imagem da verdade, um simulacro, embora não seja mentira, embuste. Assim, parece-me claro que fazer “Talagarça” ser o conto final deste livro não é por acaso. Pois que melhor conto nos faria andar para trás no livro todo, na reflexão acerca do livro e da própria escrita?

“O OUTRO”

Talvez este não seja o conto que eu prefiro, mas é seguramente o mais perfeito. A técnica narrativa, a beleza de expressão e a filiação a Platão atingem aqui o seu ponto máximo. Se anteriormente não ficou claro que Platão não é sinónimo de idealismo, é bom que fique agora. O que importa, parece ser recorrente (obsessivo?), em DVO é precisamente o lugar da reminiscência: o lugar do que está em nós, não estando; do que se faz sentir, sem conhecer; do que nos aparece, sem aparecer. A reminiscência, em Platão, é precisamente esse lugar intermediário entre o que há e o que não há, entre o que se tem e o que não se tem, entre nós e nós mesmos. Usando as palavras de DOV “quando o outro é você mesmo.” O outro nós-mesmo é esse lugar intermédio, esse lugar a meio caminho entre saber e não saber, isto é, o lugar humano. O lugar que poderia ser descrito hoje como que o lugar da revelação fotográfica, como aparece escrito no conto: “qual solução de nitrato de prata a fazer surgir em papel lavado de branco a imagem que não havia, mas que ele, o papel possui sem saber”. E se essa imagem é escrita para mostrar o amor pelo outro a aparecer na poeira do dia, também podemos usá-la para mostrar tudo o que aparece em nós. A saber, nós somos o que não sabemos que somos. Esta é a grande obsessão destes contos. Mas, se para Platão, há uma saída, não para a condição humana, mas para uma melhoria da sua condição, através do conhecimento, para DOV isso nem sequer é secretamente pensado. Viver não tem saída, isto é, não tem uma seta na direcção do melhor, pois nunca se sai da reminiscência. A reminiscência não é um modus operandi que através de uma tenaz perseguição do conhecimento nos põe num estádio diferente de consciência. Não, reminiscência é o que somos, o que não podemos deixar de ser. Viemos ao ser como reminiscência e vamo-nos de igual modo. Como se lê no conto: “Renato tentou se ver vendo, saber o que sentia ao vê-lo.” Tentar pode-se, mas não leva a lugar nenhum diferente daquele em que se está. Adiante, DOV escreve: “Quando deu por si, se é que de fato deu por si”. Diria que toda a escrita de DOV é este movimento de nos fazer dar por nós, mas sem que de facto isso altere o nosso estádio de reminiscência. Dar por nós é compreender a prisão reminiscente em que nos encontramos. Por isso, o conto assume a certa medida desta verdade. O conto é, em si mesmo, uma contínua e perpétua reminiscência, pelo menos em DOV. O ser humano está claramente, nesta escrita, entre sucinto e explicativo, entre o poema e o romance, entre o fragmento e o ensaio. Concordemos ou não, o humano tem na escrita de Vaz a dimensão do conto. Humano e conto são uma e a mesma coisa. Não há uma seta na direcção do melhor; há uma recorrência do que há. E nesta recorrência se faz a vida e a pomos a pensar e a escrever, que é pensar pra fora.

PASSAGENS (Citações do livro):

“(…) eu era agora um moço, com os olhos habituados a apreciar a última moda e a vibrar todo de prazer com o burburinho da cidade.” (p. 15)

“Acrescente-se a isto que era de tardezinha, e a enfraquecida luz do dia desbotava todas as coisas.” (p. 16)

“Afastei-me; a custo afastei-me; ia sem querer ir. [impressionante a pontuação aqui, em que os pontos e vírgulas – muito mais do que as descabeçadas vírgulas – nos fazem ver claramente os movimentos do narrador interrompidos, trôpegos, atropelados pelo destino] Parei na calçada numa última esperança e me voltei. Meu rosto devia estar pedindo que me abrissem a porta.” (p. 19)

“Nada me tirou de mim; o jogo da paciência não apressou os ponteiros do relógio e resolvi descer para ver se encontrava alguém com quem falar.” (Ibidem)

“Então Marco repetiu outra vez o que vira e mais um pouco. Não que aumentasse de propósito ou mentisse, o assombro da visão é que dava a ele outros olhos e ao tempo da contemplação, outro relógio.” (p.65)

“Esperou profissionalmente que estivesse pronta, depois ajeitou-a no lugar e seu perfume tinha o aroma não sabia de que madeira. Até aí nada, ou um princípio indefinido; mas quando, acabando de fazer o foco, ele a viu através da lente, algo surpreendente aconteceu; não soube que outros olhos a máquina lhe deu, talvez o fato de poder olhá-la sem a preocupação de ser notado, encoberto que estava com a máscara do ofício, fez tudo, fez o instante de se apaixonar.” (p. 75)

“Coisa mais contraria à identidade são essas padronizadas fotos: mesmo tamanho, mesma expressão em todos os rostos, cinzas até quando coloridas, de tempo nenhum até quando datadas. Não somos nós ali, e ali ficaremos para sempre não sendo.” (Ibidem)

“O universo não se alterava em nada com seu ato, o vento continuava soprando e a tarde continuava bonita.” [veja-se como a repetição do verbo continuar nos transporta ainda mais para a não alteração do universo](p. 80)

Aceitou ser criminoso como aceitava a comida que lhe davam na prisão: não se tratava de uma escolha.” (p. 118)

“Euclides olhou-o com repugnância, no fundo com inveja.” (p. 119)

“Euclides pensou com alegria nesse tempo que lhe parecia estranhamente pertencer a uma outra vida.” (Ibidem)

“Alina, sem dizer ou fazer nada, fazia eu me sentir culpado, ainda que a culpada era ela, sim ela, bastava somente existir a minha volta para ser culpada de eu sentir culpa. (pp. 129-130)”

“É engraçado, encontramos uma distancia para nos amar e eu sinto tanta saudade dela. gostaria de poder tocá-la, e agora só o que consigo é só abraçar o vento. Engraçado como sou, quando podia tocá-la, rejeitei-a, hoje sinto saudade do impossível.”

OSCAR VAZ, David. A Urna, Ateliê Editorial, SP, 1998

nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista




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