Abuso

por Dora Lorch

Diante do significativo aumento de ocorrências de casos de abuso, cada vez mais freqüentes na mídia e na vida das pessoas, considero prudente debater e orientar para combater esse mal. Nesse artigo e nas próximas semanas, tratarei do tema nesse espaço para promover a defesa da mulher e da infância.

Infelizmente, situações de agressividade entre casais não são raros. A quantidade de casos de morte de mulheres por parceiros então é maior ainda. É tão grande que nos Estados Unidos já existe uma palavra para esse tipo de crime: “femicídio”, ou seja, assassinato de fêmeas.

Mas há maneiras de prevenir esse tipo de ocorrência: sabendo quais as características que facilitam o abuso e percebendo os sinais de que a relação está em níveis altos de possessividade. Mesmo as crianças e adolescentes costumam indicar que estão sendo vítimas de violência.

Vanessa, de 17 anos, é uma garota magra, tímida e de fala mansa. Procurou o projeto Florescer da Fábrica porque o pai a estuprava há anos. Ninguém desconfiava. A mãe certa vez percebeu o pai bêbado no quarto da filha. A partir daí, não dormia nas noites em que ele se embebedava. Mas isso não adiantou muito, pois, na verdade, os episódios sexuais aconteciam à tarde. Enquanto a mãe estava trabalhando, o pai pedia ao filho mais novo para comprar qualquer coisa na padaria e abusava da filha. Mas como uma coisa assim acontece sem que ninguém perceba?

Os abusos acontecem aos poucos. Na maioria dos casos são homens que se aproximam de meninas pequenas, com cerca de cinco a oito anos. Em geral, são pessoas da sua confiança e da família. Em mais da metade dos casos, os abusadores são os próprios pais ou padrastos. Eles chegam elogiando a criança, fazendo carinhos ingênuos, como passar a mão na cabeça ou pelas costas, inocentemente. Se a criança não se retrai, o carinho aumenta e fica mais ousado: no colo, braços e pernas. As crianças gostam do carinho, pois é agradável, mas não percebem que pode acabar num ato de abuso sexual. Não sabem do que se trata e nem se dão conta se querem.

Em seguida, o assédio passa a ter intenções claramente sexuais: peitos, meio das pernas, nádegas, vagina. Em geral, os carinhos vêm junto com um ritual de sedução que inclui presentes como chocolates, balas, refrigerantes, passeios, roupas. Em algumas ocasiões, depois do abuso começa o estupro propriamente dito, ou seja, o ato genital[1]. As crianças tendem a assustar-se quando chega neste ponto, querem falar com suas mães. Mas, a partir daí, elas são ameaçadas: “Se você contar para sua mãe, ela vai ficar brava com você!”; “Se sua mãe descobre, ela vai ter um enfarte e vai morrer!”; “Se sua mãe me tira de casa, como vocês vão viver?”

Vanessa não queria ficar em casa. Qualquer motivo era bom para sair com a mãe. Hostilizava o pai, mas isso era entendido como “coisa de adolescente”. Sempre que podia, ia à igreja. Lá, todos a respeitavam e a acolhiam. E foi, por isso, que ela decidiu revelar para o padre o que acontecia. No começo, ela se recusava a contar por medo e vergonha do que os outros pensariam. Também temia os comentários, uma vez que tinha demorado tanto para falar. Mas o padre foi tão amigo e tão paciente, que ela resolveu falar.

A denúncia demora porque a criança custa a perceber o que esta acontecendo. E quando descobre, sente-se culpada por ter deixado a sedução chegar tão longe. A vergonha e o medo impedem que a vítima delate o acontecido. Depois da denúncia, Vanessa teve de lidar com a família. Com a prisão do pai, que era quem sustentava a casa, a família não tinha com quem contar para o sustento, a não ser com a comunidade religiosa. Teve ainda de enfrentar a raiva da mãe pelo duplo sofrimento: ser traída pelo marido e ser trocada pela filha. Em momentos de crises agudas, a mãe a culpava por ter “destruído a família”.

Além de lidar com a dor, com anos de violência sexual, Vanessa tinha de agüentar a frustração da mãe, a raiva do irmão por não ter mais o pai por perto e os comentários maldosos dos amigos da escola. O nosso desafio (do projeto Florescer da Fábrica) era drenar todas as mágoas, desilusões e ainda conseguir que a família voltasse a se apoiar mutuamente.

Deparamos-nos freqüentemente com experiências de abuso. Tanto que é possível montar um perfil das vítimas mais propensas a sofrer assédio. São vítimas em potencial as crianças muito amigáveis e expressivas; as que sentem carência afetiva; as que fantasiam e são mais criativas, pois acabam perdendo a credibilidade.

A família, entretanto, tem um papel primordial. Os pais devem dedicar atenção e acreditar no que a criança diz; evitar a crítica excessiva, que inibe e dificulta a manifestação; considerar que é necessário redobrar a vigilância com pessoas aparentemente insuspeitas; e orientar sobre vestimentas adequadas à idade. São providências que podem evitar os assédios.

As estatísticas[2] mostram que há crianças abusadas desde muito jovens: 10% entre 2 e 5 anos; 36% entre 5 e 10 anos. Mostram também que a pessoa mais procurada quando resolvem contar é a mãe. Dos casos investigados, 86% dos abusos acontecem na família. Desse total, 79% são feitos pelo pai.

Essa realidade sugere que se redobrem os cuidados para prevenir aproximações. É importante acreditar e investigar o que os pequenos nos contam; vigiar onde estão, com quem estão e como estão. E dar amor. A carência afetiva deixa a criança vulnerável a carinhos e atenções.

[1] O ato sexual anal é chamado de atentado violento ao pudor
[2] Os dados constam do trabalho “Abuso Sexual Infantil e Dinâmica Familiar – Aspectos observados nos procedimentos jurídicos”, de Luiza Habigzang, da Universidade do Rio Grande do Sul e colaboradores.




*nome

*e-mail

site ou blog

comente a postagem :: tentativas de contato por comentário serão bloqueadas