Acerto de contas por Henrique Schneider

por Henrique Schneider

Quando desembarcou na minúscula rodoviária de Campo Seco, tudo o que Berenice tinha era a fotografia antiga e o desejo difuso de finalmente acertar as contas com o homem que, quarenta anos atrás, a fizera sair quase fugida daquele pequeno fim de mundo. Olhou ao redor e o lugarejo ainda era tristemente o mesmo; apenas as casas do entorno estavam mais derruídas.

Talvez nem fosse vingança o que desejasse, pensou ela ainda outra vez, enquanto atravessava a rua em direção à praça central. Mas queria ao menos conversar com Ernesto, saber por que ele havia feito aquilo, porque jogara na lama o seu nome – e aí, sim, talvez vingar-se. Mas não sabia como. E primeiro precisava encontrar aquele canalha.

Passou pela praça e entrou na barbearia. Igual a quarenta anos atrás, só o barbeiro era diferente.

“Bom dia. Alguém poderia me dar uma informação?” – e, tirando da carteira a fotografia amassada. – “Sabem onde eu posso encontrar este homem? O nome dele é Ernesto.”

A foto passou de mão em mão entre os clientes, que a olhavam com atenção distraída.

“Quantos anos tem esta foto, senhora?” – perguntou o barbeiro, solícito.

“Quarenta.” – respondeu Berenice, e ele então a olhou como se a mulher lhe pedisse uma tarefa impossível.

Mas outro pegou a fotografia, mirou-a com atenção renovada e tentou.

“Sei lá, até pode ser o vô Titico…”

Os outros se aproximaram, concordando. Há quatro décadas, ele poderia parecer com este homem da fotografia. Mas o nome do vô Titico era Ernesto? Ninguém sabia – toda Campo Seco o conhecia só como vô Titico.

“Ele é o Papai Noel da cidade. Desde que eu era pequeno.” – Berenice olhou para o homem, que teria seus trinta anos, e ele parecia emocionado. – “Mas este ano, não. A diabetes não deixa mais o vô Titico levantar da cama. A vida não é fácil, senhora…”

Senhora, pensou Berenice, e de repente tudo era um clarão: viera acertar as contas com Ernesto, o homem que a enganara, e o que encontrava era este incerto vô Titico, Papai Noel daquele fim de mundo, jazendo doente na cama sem poder se levantar. E se não fosse este, seria outro. Então olhou para si, senhora aos olhos dos outros, cintura sexagenária apertando o vestido, o cabelo azulado, os vincos; não era para vingar-se de um avô doente que havia viajado. Um erro – melhor esquecer. Não devia ter vindo.

Vou embora, pensou ela, enquanto outro cliente da barbearia pegava a foto e comentava que aquele ali não parecia o vô Titico.




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