por Dora Lorch
Alice nos procurou porque o filho chorava muito. Ela era casada há nove anos e o menino tinha seis. Portanto, podemos concluir que não foi um casamento às pressas por causa da gravidez.
— O que você faz quando ele chora? Pega no colo?
— Não, não gosto muito disso.
E prosseguiu:
— Mas, adoro meus filhos. Sou capaz de qualquer coisa por eles.
Achei estranha a resposta. Investiguei como era o relacionamento com o marido: bom e afetivo, com troca de carinhos.
— Como era com seu pai?
— Não lembro. Não fui criada por ele. Fui criada por um irmão. Horroroso, bruto, me batia muito, xingava, nunca mais o vi, nem quero ver.
Mais tarde, soubemos que a mãe de Alice saiu de casa porque o pai batia muito nela, e quem a acolheu só aceitou um dos filhos. Os demais foram separados em casas de parentes e conhecidos. A mãe optou por ficar com a mais nova, que ainda era bebê. Com certeza, “a escolha de Sofia[1]”.
Alice cresceu achando que ninguém gostava dela, que não servia para nada. Casou com alguém que a amava e que ela também amava, teve dois filhos, mas era clara a sua dificuldade para estabelecer vínculos afetivos. Por isso, seus filhos apresentavam certos problemas que não eram fáceis de localizar.
O marido sofrera um acidente e teve que ficar afastado do trabalho. Nestes casos, como se sabe, o salário fica reduzido e ela teve de assumir dois empregos para conseguir pagar as contas. Chegava em casa muito cansada e ainda tinha de dar atenção aos filhos e ao marido. Nem sempre ela agüentava. Então, quando alguma coisa saia do controle, o nervoso e a exaustão a invadiam. Ela acabava batendo nos filhos. Os meninos, por sua vez, não sabiam o que fazer para ter a atenção e o amor da mãe.
A psicóloga responsável pelo caso resolveu desenvolver com ela um laço afetivo bem forte. Tão forte foi este vínculo que montou uma festa surpresa para Alice na sede do projeto Florescer da Fábrica e chamou o marido, filhos e irmãos que moravam em São Paulo. Foi a primeira festa que Alice teve na vida (no ano seguinte soubemos que ela deu uma festa em sua casa).
Depois de um tempo, Alice voltou à Bahia para ver a família. Todas as atitudes que ela considerava descaso se tratavam, na verdade, de cuidados para poupá-la. Agora ela ouvia sua mãe dizer: “Vão brincar em outro lugar, porque sua mãe precisa descansar. Ela trabalha muito em São Paulo!” E percebia que era um gesto de carinho. Antes, este tipo de comentário despertava muita raiva, porque ela achava que a mãe a estava chamando de incompetente para cuidar dos filhos. Ou seja, a mágoa era tanta que ela não conseguia receber nada que viesse de sua família.
Até que, um dia, ela viu o irmão (aquele que batia muito nela quando pequena) pegar em uma arma para ameaçar o próprio filho, um adolescente que queria sair. Ela lembrou-se do quanto tinha sofrido com aquilo. Levantou-se de um pulo, se pôs na frente do sobrinho e gritou com o irmão:
— Guarde a arma! Você não pode fazer isso!
O irmão assustado alegou ser brincadeira.
— Que brincadeira que nada! Isso é contra a lei! Se você continuar assim, vou ao Conselho Tutelar para eles tomarem uma providência.
O irmão parou imediatamente.
Foi então que ela percebeu que seu irmão era uma boa pessoa, mas despreparado para lidar com este tipo de situação. Fazia o que conhecia. Ele era a única pessoa com quem a família podia contar. Mas, em matéria de educação, precisava aprender muito.
Antes de voltar da viagem, ela chamou o sobrinho na frente do pai e disse que se ele fosse ameaçado novamente, podia ligar para ela em São Paulo que de lá mesmo ela tomaria as devidas providências. Alice não só deixou de agredir seus filhos e a si mesma, como pôde ajudar aqueles que como ela estavam oprimidos. Ela só precisava de um pouco de “colo”, de compreensão e de tratamento.
Em muitos casos, as pessoas violentas têm um passado de agressão. Para que não reproduzam o que sofreram, o primeiro passo é fazê-los perceber porque desenvolveu essa postura. A propósito, sabe quem a levou para o projeto Florescer da Fábrica? Lembra do bebezinho que a mãe de Alice teve de escolher? Isso mesmo. Foi a irmã mais nova que amparou Alice.
[1] A Escolha de Sofia é um livro que conta a história de uma mulher judia durante a Segunda Guerra Mundial, que teve que escolher um filho para sobreviver e enviar outro para a morte.
* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.