Ah, naquele tempo…

Por Antonio Luiz M. C. Costa
Carta Capital / Data: 1/3/2006

Uma narrativa séria e apaixonante, apesar de parcial, da história dos sentimentos no Brasil

Os debates sobre os rumos do País e as comemorações dos 500 Anos do Descobrimento parecem ter despertado um duradouro interesse dos brasi­leiros pela sua história. Hoje, revistas e li­vros destinados a não especialistas têm um mercado que não se poderia imaginar há, digamos, 15 anos. A história dos costu­mes e da vida privada é particularmente rica. Não atrai só quem quer entender os problemas nacionais, mas também os interessados no folclore e nas maneiras de sua gente, ou os leitores de José de Alencar, Machado de Assis ou Erico Verissimo interessados no contexto das vidas dos personagens. É só parte das razões pelas quais vale a pena explorar o espaço aberto pela His­tória do Amor no Brasil, da historiadora Mary Del Priore, fundado em pesquisa séria e escrito com paixão. Oferece muito a aprender e muito com que se surpreender com a forma como nossos precursores constituíam suas famílias e lidavam com seus desejos e sentimentos. Mas, se a autora queixa-se de que “es­tudar a história do amor segue, aos olhos das severas ciências que nos governam, um grave estigma de ligeireza”, suas excelentes intenções são às vezes traídas pelos descuidos da edição.

O leitor não sabe se os deve atribuir à falta de tempo, de profissionalismo ou de consideração para com sua cultura e inteligência. A historiadora adver­te, desde a primeira li­nha da epígrafe, que “este livro não é endere­çado aos eruditos”, mas não é preciso ser erudi­to ou historiador para pedir à autora e aos re­visores um pouco mais de cuidado com a lín­gua, tanto com a nossa quanto com as outras. Um dos capítulos cha­ma-se “Metereologia (sic) das práticas amorosas” e o penúltimo garante que nos anos 60 lia-se “William” Reich. Ainda no contexto dos anos 60, se diz que a nota de “5 mil-réis”, com “efí­gie de Santos- Dumont”, era apelidada de “voando para o Mangue”, por ser o preço de um “programa” naquele bair­ro do Rio de Janeiro. Pode ser, mas a cédula, lançada em 1966, era de 10 mil cruzeiros: os mil-réis haviam sido abo­lidos desde 1942. A abundância de citações sem indi­cação de fonte incomoda até o leigo. Não se trata de pedir a imposição dos critérios aplicados a artigos eruditos e teses de pós-graduação, mas de bom senso jornalístico – deixar claro quem fala, quando e onde, para começar – e de uma precaução mínima de objetivi­dade. O risco é induzir a confundir a exceção com a regra e vice-versa. Nos períodos co­lonial e imperial, a autora enfatiza as ca­sas-grandes e sobrados. Dadas as fontes disponíveis, isso tal­vez seja difícil de evitar, mas não justi­fica rotular como “típicos” do Brasil ou da “mulher brasileira”, sem ressalvas, os padrões e costumes de uma elite que não representava sequer a maioria dos brancos livres. Quando Mary nos permite uma espiada nas senzalas e mocambos, mais impor­tantes em número e talvez também para as raízes das atitudes modernas do brasileiro médio, entrevemos compor­tamentos diferentes e bem interessan­tes, embora muito difíceis de pautar pela clave sugerida na introdução – Ju­lie ou A Nova Heloísa de Jean-Jacques Rousseau. Plausível, talvez, para um es­tudo análogo sobre a Europa, mas ina­dequada como fio condutor de uma narrativa sobre um país no qual poucos sabiam ler. Deixa o amor das camadas populares parecer anomalia ou curiosi­dade folclórica, à margem da “verda­deira” história. O texto aponta aspectos hipócritas e contraditórios das convenções do amor romântico, mas transpira nostalgia por suas ilusões e por sua linguagem “feita de prudência, sabedoria e melancolia”. Termina em revolta contra a “ditadura do orgasmo”, que, segundo a autora, in­verteu os velhos interditos, tornou obrigatórios o amor e o prazer, impôs o fardo da liberdade sexual e condenou o casamento à brevidade e à crise. Esse ponto de vista merece respeito, mas não deveria impor como verdade acima da história o sentir de certas clas­ses e épocas. A história do amor não é apenas a das tentativas de imitar o ideal inalcançável dos autores românticos.




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