Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

por Dora Lorch

Tem alguns comportamentos que “herdamos” de nossos pais, de repente nos pegamos fazendo a mesma coisa que nossas mães faziam, ou falando coisas que nos remetem à infância. Quantas vezes você não disse frases inteiras que finalmente fazem sentido (“esqueceu que você tem casa?”; “meu consolo é que um dia você vai ter filhos.”; “quer me matar de desgosto!” “ Faço porque eu te amo”…). Quantas vezes nós não nos pegamos agindo igualzinho aos nossos avós ou pais?

Sem dúvidas que a educação que nós passamos para nossos filhos tem como base a educação que recebemos, algumas atitudes queremos repetir, outras vezes queremos fazer exatamente o contrário.

Infelizmente, na maioria das vezes passamos aqueles comportamentos que adoraríamos que eles não aprendessem. Por exemplo, quem quer ensinar os filhos a roer unhas? Ou ser ansioso? Ou ter medo do mundo?

Porém há casos que não reconhecemos o que estamos ensinando, e por isso mesmo não sabemos como lidar com a situação.

Mariá é uma mulher ultra conservadora, intransigente em relação a tudo que precisa e deve ser feito. Ela só tem uma maneira de ver as coisas: do jeito dela. Estava decepcionada com a filha que andava apresentando comportamentos explosivos, sem motivo aparente. Dizia que a escola reclamava da menina, que ela chegava tarde, que ela não, que não queria ajudar nas tarefas diárias.

Esperança, sua filha, era uma adolescente de doze anos, mas quem via pensava que tinha dezesseis, pela aparência e pela conversa centrada e responsável. Claro que ela tinha lá suas criancices. Os pais, no entanto não percebiam suas qualidades já que as expectativas deles era muito alta. Isso quer dizer que tudo o que Esperança fazia era pouco se comparada ao desempenho que seus pais almejam. Além de ser uma boa menina, devia acompanhar a mã e a todos os lugares, e se vestir e se comportar tal qual a mãe queria. Conversar com as amiga! Nem pensar! Era muito “perigoso” porque “não se sabia quem eram estas meninas” e a família não confiava no julgamento da filha. Mas também não ensinavam os critérios para esta que escolha pudesse ser feita, ou meios para aprender a se defender na vida.

Com tantas exigências, aquilo que ela fazia de certo não era sequer reconhecido, o que desmotivava Esperança. A sensação é que estava sempre devendo, mesmo quando fazia tudo de acordo. De uns tempos para cá ela tinha desistido de tentar e resolveu fazer o que queria, já que não conseguia agradar nem quando se esforçava ao máximo. Percebeu que com os pais não tinha composição possível, não adiantava falar a verdade porque não era sequer ouvida. Já que ia ser punida mesmo, que tal mentir para poder aproveitar mais um pouquinho o que a vida poderia lhe oferecer? E havia sempre a possibilidade de não ser descoberta…

Num destes dias a mãe chamou o pai para dar uma bronca por um comportamento inadequado, claro depois de a mãe tentar puni-la com gritos e ameaças. De tão nervosa, a mãe entortou sua chapinha, quebrando o equipamento. O pai ouviu a reclamação e possesso, tirou o chip do celular da menina e o esmigalhou. Depois, ainda furioso quebrou o celular.

Pergunto: porque será que esta menina estava apresentando comportamentos cada vez mais impulsivos? Talvez porque os adultos que são seus exemplos sejam também pessoas impulsivas. Talvez porque ela não acredite que possa ser valorizada pelas atitudes ou qualidades que ela tem. Talvez porque os hormônios estão fazendo das suas. E provavelmente estas três alternativas estejam certas.

Ao quebrar as coisas somente porque o adulto ficou nervoso, significa que os “grandes” podem fazer qualquer coisa. Ensinam o que eles não gostam de ver refletido na filha (tanto que reclamam do comportamento). Refletem ações que provavelmente eles tenham visto quando criança, e que continua a fazer parte de sua vida, parte sombria é bem verdade.

Mas para conseguir lidar com isso e ajudar a filha faz-se necessário perceber o que os adultos estão ensinando com suas posturas.




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