Amigos ocultos

do blog Luís Antônio Giron

Fazer amigos que você não vê e nem verá é uma banalidade na internet. Mas a desmaterialização das relações humanas não é invenção deste tempo. Jà no meu, antes da popularizaçáo da “chateação” por laptops e celulares, o fenômeno já ocorria. E se deu comigo, por culpa do arcaico telefone fixo.

Aí por 1993 um poeta chamado Vicente Cechelero se apresentou a mim num telefonema. Ele me disse que havia obtido meu número de um amigo comum, o Fernando Dantas, colega da Letras-USP. Em um minuto, Vicente e eu viramos amigos de infância. E as ligações se tornaram freqüentes e longas. Noites adentro, contava a suas aventuras literárias. Quem disse que o “bit torrent” surgiu agora não conheceu o Vicente: ele era um jorro instantâneo e infinito de informação, sugestões de leitura e ditos impopulares.

Nas conversas, conheci sua personalidade: nasceu em Joinville, Santa Catarina. de onde “fugiu” em 1969, para se radicar na Paulicéia, pois brigara com meio mundinho literário sulista. Publicou dois livros. Era o modelo do bardo maldito, que eu não imaginava ainda existir. Declamava e cantava… música sertaneja. Entre as lições que me deixou, a mais comovente foi sobre o assunto. “Amo essas toadas”, disse. “Não as despreze. Porque ouvi-las é como andar por um prado cheio de flores silvestres. Há uma beleza singela nessa música.”

O poeta não tinha residência fixa. Havia anos morava no hotel Central, na avenida São João, e gostava de tomar ônibus e perambular pelas ruas, em busca de sebos, estupores e lendas. Certo dia jurou que queriam despejá-lo do hotel, não por falta de pagamento, mas porque ratos e cupins povoavam seu quarto, empoeirado e atulhado de alfarrábios, inclusive egípcios… Seria verdade?

Foi a sua derradeira ligação. Só me dei conta meses depois. As ocupações nos afastam dos amigos – mais ainda os virtuais. O que lhe teria acontecido? O século estava prestes a se encerrar quando o Fernando me informou, por telefone, que Vicente havia morrido, em Santa Catarina, de um ataque cardíaco, enquanto cantava e declamava à beira do leito de sua mãe enferma. Tinha 50 anos. “Mas o Vicente é estranho”, observou o Fernando. “Leu demais os contos fantásticos Borges. Talvez ele tenha, borgianamente, simulado a morte e se escondido por aí, para escrever em paz.” Assim perdi um amigo que nunca vi. E tenho dúvida se existiu de fato, ou teria sido um trote do Fernando. Jamais saberei, pois Fernando também se foi. Quero crer que ele, feito Vicente, ande incógnito por aí…




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