Antes da bonança, tem a tempestade

por Dora Lorch

Uma pessoa bem educada é aquela que sabe respeitar os limites. Que sabe se colocar no lugar do outro, tem sensibilidade e não constrange o próximo. Educação e ética estão interligadas. Ser educado e ter ética, contudo, demandam esforço, tempo e nem sempre é cômodo.

Para quem educa, esse esforço representa orientar sobre o princípio de que sua liberdade acaba onde começa a liberdade do outro. Essa é uma tarefa árdua, um exercício de perseverança e firmeza. Implica também ensinar a respeitar os limites dos pais, dos avós, dos professores. Explicar que pai e mãe se cansam, que não podem tudo e que precisam ser poupados. E é preciso saber que crianças e adolescentes vão tentar testar até que ponto precisam mesmo respeitar os adultos.

Um dos grandes problemas da atualidade é que pais que trabalham reconhecem que deixam seus filhos o dia todo e querem compensar a ausência de alguma forma. E, por isso, relevam certas atitudes. Se é verdade que filhos precisam de pais, a recíproca também é verdadeira: pais também sentem a falta dos filhos. Portanto, deixar passar algumas atitudes, saber que os filhos, em parte, se sentem abandonados e ter paciência é mesmo importante.

Mas é fundamental saber qual o momento de impor limites e o momento de dar colo. Muita cobrança pode fazer tão mal quanto nenhuma regra. A pessoa pode sentir que não é possível alcançar o que os pais/parceiros ou educadores estão esperando e acabar desistindo de tentar. Para muitos pais, os limites da vida doem muito e, desta forma, tendem a poupar os filhos sem perceber que essa postura pode prejudicá-los.

André é o filho mais novo de uma família numerosa. Por isso, ele é considerado “café com leite” ou, em outras palavras, nada do que faz é levado realmente a sério. Ninguém pode brigar com ele, nem chamar sua atenção, porque o pai o protege e fica muito bravo com isso. Quando faz algo errado, todos relevam e, se faz algo certo, é super valorizado. Roberto, o irmão, que tem dois anos a mais, não gosta nada dessa situação, pois acaba sendo o “saco de pancadas”. Assim, o pequeno pode fazer dele o que quiser, e ai do mais velho se quiser se defender! Todos reclamam.

A família está criando um ditador. Ele pode fazer qualquer coisa e os demais têm de aceitar. Além disso, ele não está aprendendo uma das leis mais verdadeiras do mundo: quando se é menor ou mais fraco, não se enfrenta o inimigo sozinho. Por outro lado, ao orientar o irmão mais velho a ficar quieto, os pais não estão ensinando a avaliar os riscos dessa atitude. Não quer dizer que devemos deixar os irmãos se digladiarem; mas é preciso permitir que cada um possa se defender.

Então, um belo dia, André brigou com o irmão mais velho e o empurrou janela abaixo. Resultado: dias de hospitalização, ossos quebrados, um grande susto e, por sorte, só isso. Como vocês acham que André ficou? Assustado? Não. Ficou achando que era super-poderoso, que conseguiria tudo que quisesse, bastava querer. Passou a ameaçar a todos que cruzassem seu caminho.

Desconhecer os limites é uma grande responsabilidade, porque há momentos em que desejamos coisas não muito boas. Na prática, sabemos que essa nossa vontade não se tornará necessariamente realidade. Então, podemos ficar um pouco angustiados, achar que não deveríamos nem pensar determinadas coisas, mas só isso. Para as crianças pequenas, acreditar que o pensar pode virar um fato é desesperante, porque ela terá de controlar seus pensamentos, o que é impossível. Portanto, dar limites é também cuidar da criança, respeitando suas necessidades e fragilidades.

Neste caso, orientamos a família e os irmãos a mostrarem para André o que ele podia e o que ele não podia; pedimos que deixassem Roberto reagir, brigando quando achasse que era o caso; e mostramos ao pai a importância de pôr limites quando André fizesse coisas que não devia – conversando ou aplicando algum castigo, mas sem violência física.

Deste modo, ele aprenderia o que pode e o que não pode fazer. Se a criança não tem noção de sua capacidade, acredita que vai conseguir tudo o que quer sem esforço, e quando não conseguir vai achar que não tem sacrifício que valha a pena. Ou seja, sem que os adultos ajudem na descoberta dos limites de cada um, conseguir ou não o que se quer passa a ser um meio mágico, externo à pessoa.

Se a criança conhece seus limites ou, em outras palavras, sabe quais são suas potencialidades e quais são seus pontos fracos, mais facilmente conseguirá descobrir onde estão os obstáculos que lhe atrapalham, e o que deve fazer para ultrapassá-los.

Mostrar os limites não é tarefa simples. É uma verdadeira tempestade. Por isso, é preciso insistir, agüentar a cara feia, as ameaças, as tristezas. E lembrar sempre que ensinar é tarefa que não se resolve numa única conversa, requer muito dialogo e coerência na postura.

Mas depois da tempestade, vem a bonança.

* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.




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