Aprendendo a aprender

por Dora Lorch

Aprender a ler, especialmente nas escolas públicas, nem sempre é fácil. Tenho recebido muitas crianças de 10anos ou mais que não aprenderam ainda. Será que o problema é da escola? Do professor? Ou do aluno?

Lembro de um menino adolescente que não sabia ler, nem escrever. Usando uma técnica premiada[1] pedi para ele escrever o nome do sabão em pó que a mãe usava. Para minha surpresa, ele escreveu num pedaço de papel: “Omo multiação”. Perguntei:

— Mas não era você que não sabia escrever? Então, escreva a marca de biscoito que sua mãe costuma comprar?

Ele pensou um pouco, escreveu “maisena” e me perguntou:

— Com leite ou sem leite?

Respondi:

— Como é que você sabe que é com leite?

A conclusão que tiro desse episódio é a de que as crianças sabem mais do que percebem, mas acham que não sabem. Provavelmente, porque não se sentem seguras para expressar o que sabem e o que não sabem. Esse menino não voltou mais. Acho que percebeu que podia aprender, por isso não precisou mais de ajuda. Talvez esse seja o segredo: mostrar às crianças que elas podem por meio de esforço e ajuda. Infelizmente, no entanto, não é isso que as escolas oferecem. Sei que os professores estão sobrecarregados, especialmente os professores de escolas públicas, onde há muitos alunos e pouco apoio. Mas são eles que podem mudar a vida de seus alunos.

Preocupada com tantas reclamações, fiz uma pequena pesquisa entre pais e jovens nos três projetos sociais que participo e com pessoas amigas: perguntei o que eles se lembravam de bom e de ruim do tempo de colégio. Quem estudou em escolas particulares, tinha boas lembranças relacionadas aos amigos – recreio, festas, conversas – e recordações ruins atreladas aos professores. Entretanto, os estudantes de escolas públicas tinham boas lembranças em relação aos professores, especialmente àqueles que os acolhiam e os incentivavam a continuar estudando. O que será que isto quer dizer?

Joaquim é um menino diferente. Calmo, quieto, introvertido. Eu nunca o tinha visto dar risada. Aliás, ele mal levantava os olhos para ver qualquer pessoa. Quando veio a primeira vez ao projeto Florescer da Fábrica, percebi que sua camisa pólo estava abotoada até o pescoço. Como fazia calor, aquilo me incomodou. Por que um pré-adolescente andaria tão abotoado?Por que tão contido?

Percebemos que nem os pais, nem a escola sabiam o que fazer com o menino. Ele se recusava a fazer as tarefas, mas não era agressivo. Ou seja, não aprendia, mas não criava caso. Com o tempo começou a não ir mais aos projetos sociais. Ficava pela rua andando de bicicleta; freqüentava as lan houses; e brincava com o pessoal.

Claro que adolescentes sem supervisão de adultos têm mais chances de se meter em encrencas. E foi exatamente isso que aconteceu com Joaquim. Um belo dia, disseram que ele tinha roubado. O menino, contudo, contou outra história: um amigo pedira para ele guardar a bicicleta. Ele guardou, mas não sabia que ela não pertencia ao amigo. Joaquim tinha mesmo jeito de laranja: muito tímido, sem malícia, sem adultos cuidando…

Desesperados, os pais foram me procurar porque o dono da bicicleta era homem violento e queria resolver o problema na força: batendo ou matando. Decidimos, então, que o melhor seria a mãe parar de trabalhar e dar suporte ao menino. A família devolveria a bicicleta e acertaria as contas se houvesse alguma. A presença da família seria uma forma de determinar até onde havia pendências, de modo a não permitir chantagem com o garoto.

Certo dia, levei Joaquim para conhecer um sebo e perguntei se ele gostaria de levar um livro ou uma revista. Ele procurou, olhou e escolheu um gibi do Batman. Algum tempo depois, me contou que estava lendo todos os dias aquele “livro”. Dois meses depois, liguei para escola para saber como ele estava. Ouvi que não tinham expectativa quanto ao Joaquim, porque ele demorou tanto para aprender a ler que acharam que ele teria alguma deficiência. Provavelmente, a incapacidade não era na aprendizagem, era na auto-estima. Como na história anterior, ele não sabia que podia.

Não é possível aprender se o erro é sempre valorizado. É preciso ver sem medo onde erramos para aprender com o erro. A boa escola também ensina a pedir ajuda e acolhe o erro. “O lugar para cometer erros é a escola, onde as conseqüências não são drásticas”, afirma o professor Fredric Litto, da USP. “Lá ele pode tentar, errar, tentar de novo, acertar. A solução oferecida como prato feito não ensina o aluno a pensar[2]“.

Agora, no fim do ano, quando os professores estão tão cansados, deixo minha solidariedade e renovo minha esperança de que o futuro dessas crianças possa ser mais risonho com a intervenção deles.

[1] Prêmio do banco de tecnologia do Banco do Brasil ensina ler a partir de marcas conhecidas pela criança.
[2] Frase citada no site da escola Amorim Lima que inovou na educação do país.

* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.




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