As flores do mal

Henrique Schneider

Quando ele entrou no açougue, ainda indeciso sobre a carne a comprar para o churrasco, o homem grande sentado atrás do balcão tinha todas suas atenções depositadas nas páginas de um livro.

“Lendo o que?” – perguntou o cliente, talvez por surpresa, enquanto o açougueiro ainda levantava para atendê-lo.

“‘As Flores do Mal’. Do Baudelaire.”  – e levantou a capa do livro, como se quisesse exibi-lo.

“Ah, terror?” – questionou o outro, um pouco distraído, mais para comentar alguma coisa e já embicando os olhos em direção a um pedaço de alcatra luxuriosamente pendurado nos ganchos da vitrine.

“Não. Poesia.”

“Poesia?” – a atenção do cliente repentinamente voltada ao açougueiro, estranho tom de  alarme em sua voz. – “Poesia?” – ele repetiu, como se houvesse escutado mal.

“Poesia, sim. E da boa.” – comentou o açougueiro, feliz.

“Mmmm…” – fez o cliente, num muxoxo que, à falta do que dizer, era uma maneira simples de não rir. Mas em seus olhos havia uma espécie de deboche, que não passou desapercebida do açougueiro.

“Algum problema com isso?” – perguntou ele, cutelo na mão. – “Por acaso existe alguma  lei proibindo açougueiro de ler poesia?”

“Não, não… É que…”

“É que o quê? Só porque eu sou açougueiro não posso gostar de poesia? Açougueiro só pode gostar de ler gibi, bobabem, livrinho pornográfico? É isso?” – o homem estava indignado, brandindo o livro com uma das mãos e a faca com a outra.

“Não, não! O senhor me entendeu mal! Eu não pensei nada, não quis comentar nada. Só quero comprar uns dois quilos de alcatra e uma costela sem muita gordura!… O resto não me interessa. O que o senhor lê pouco me importa. Mas me desculpe, de qualquer jeito, se o meu gesto pareceu tudo isso que o senhor pensou. Me desculpe mesmo!” – e ele só olhava o cutelo à frente, o brilho seboso da lâmina.

O açougueiro cortou a carne sem vontade, como se quisesse apenas voltar à leitura. Depois, atirou o pacote sobre o balcão e não respondeu à despedida do cliente.

Enquanto carregava o embrulho em direção ao carro, ainda atordoado, o homem repetia  que um livro com aquele nome soturno nem poderia ser de poesia. É terror ou pornografia, pensou. De  qualquer modo, disse para si mesmo, nunca mais volto neste açougue.




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