As quatro freiras

por Henrique Schneider

O policial rodoviário não conseguiu evitar a surpresa quando abordou o carro. Dentro do automóvel, ar beatífico de quem pouco teme, as quatro freiras sorriam para ele.

‘Bom dia, seu guarda!” – cumprimentaram todas, quase em uníssono. – “Algum problema?”

“Não, irmãs. Só rotina.” – ele respondeu, enquanto elas caíam na gargalhada. Tanta a risada que foi a vez do policial perguntar, um pouco desconfiado, se havia algum problema.

“Nada, seu guarda.”  – foi a freira motorista quem respondeu, enquanto as outras ainda riam, felizes e inocentes. – ´É que a gente está se divertindo muito nesta viagem, enganando todo mundo.” – ela esperou um pouquinho, pequeno suspense, para depois completar. – ´É que nós não somos freiras coisa nenhuma!”

“Ah, não são?” – perguntou ele, subitamente alarmado.

“Não, não!…” – todas elas riam às gargalhadas. – “Nós estamos indo visitar uma amiga, que foi nossa colega de escola há mais de quarenta anos. O senhor nem era nascido ainda…” – ela elogiou.

“Que esperança!” – disse o policial, divertido e um pouco envergonhado.

“Pois é, esta nossa amiga está de aniversário e queremos fazer uma surpresa para ela, chegando na festa fantasiadas de freira. Conseguimos os trajes com um grupo de teatro da nossa cidade. Imagine o senhor a surpresa quando a gente chegar, a farra que vai ser!” – ela aguardou novamente, depois perguntou – “O senhor achou mesmo que a gente fosse freira, com estas unhas vermelhas, estas enormes argolas nas orelhas, este vermelhão na boca?”

Foi a vez do homem rir: estava mesmo achando aquilo meio estranho.

“Eu vou ser sincero com as senhoras.” – comentou ele, em meio ao sorriso. – “É que nós recebemos um telefonema informando que quatro mulheres haviam se vestido de freiras num restaurante da estrada, rindo muito e falando bobagens,   e que isso deveria ser checado. As senhoras sabem como é: neste mundo em que a gente vive, tudo é desconfiança.”

As mulheres ouviram aquilo e aí mesmo é que não conseguiam parar de rir: então alguém havia desconfiado delas?

“De vocês, não. Da situação toda.” – ele explicou. – “Mas nem esquentem, as senhoras podem ir tranqüilas. Divirtam-se na festa.”

“Deus lhe abençoe, seu guarda.” – respondeu a motorista, brincalhona, enquanto arrancava o carro e as outras seguiam em seus risos.

O policial ficou olhando o automóvel se afastar, achando aquilo tudo muito engraçado: cada uma que aparecia pela estrada.

Só deixou de achar engraçado uma hora depois, quando o posto policial foi avisado que quatro mulheres vestidas de freiras recém haviam assaltado o banco da cidade vizinha.




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