Asfixia

por Henrique Schneider

Ele a acorda no meio da madrugada para contar-lhe o sonho. Não importa que sejam três e meia da manhã e a mulher durma o sono justo de quem precisa levantar às sete, não importa: precisa contar agora este sonho que se repete em tantas noites pesadas. Sacode-a sem pejo e, enquanto ela recém desperta e ainda tenta entender o que está acontecendo, ele fala, fala.

Porque é uma angústia, ele diz. E a mesma todas as noites.

No sonho, é um ataque sem nome ou forma, apenas algo ou alguém a tapar-lhe boca e nariz, firme, o ar se perdendo aos poucos, num desamparo, uma tristeza exangue, morte que se repete a cada madrugada. Pouco varia. Talvez nalguma madrugada as mãos que o asfixiam o apertem um pouco mais forte ou fraco, e em outra o pano que lhe aperta o pescoço ainda permita um respirar de ofego, mas nada além. Não consegue descobrir nunca, em seus sonhos, quem ou o quê.

Medo que começa antes de fechar os olhos.

Porque dorme sabendo que irá acontecer, que daqui a pouco o sonho já não o deixará respirar, que ele buscará ar e luz no meio da madrugada, que acordará arfando em incertezas – e é tudo então um tormento. Tormento que se estende pelos dias claros que adivinham o peso da noite vindoura. Os dias se arrastando e ele como um zumbi, inválido em olhos abertos, cansado de tudo. Mas não quer fechar os olhos: tem medo de dormir, porque acha que talvez não tenha as forças para acordar.

Ele conta isso tudo à mulher, do desespero que é uma noite sem respiração, a ânsia desfalecida de finar-se aos poucos, a escuridão que vai ocupando o espaço do ar e que a cada nova noite mais se transborda dos sonhos e ganha a vida: agora mesmo, ele fala com dificuldade, quase não consegue respirar. Esta mão, sempre esta mão solerte e covarde a apertar-lhe o pescoço sem dizer seu nome. Esta mão que já não o respeita em tempo algum. Noite dessas eu vou morrer, diz ele num fio de voz sem ar, morro dormindo ou acordado. Estas mãos que agora lhe envolvem a garganta. Aquela angústia, ele chora fininho, enquanto tenta abrir com mãos preênseis este triste abraço imaginário. Por que fazem isso comigo, ele se agonia, o olhar esbugalhado.

Mas a esposa apenas o mira, agora desperta, com olhos de quem já não sabe o que fazer.




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