Bater: lição aprendida em casa
por Dora Lorch
Perder o companheiro quando se ama é uma desgraça. Com filhos pequenos, então, é pior ainda. Ainda mais se a mulher deixou sua profissão para ficar em casa cuidando deles. Quanto mais jovem, quanto menores as crianças, maior é o esforço de criação.
Mas pode-se perder o marido mesmo vivo: para o álcool ou para as drogas. Para lidar com a pressão, a mãe precisa contar com o apoio dos filhos. Em alguns casos, no entanto, a insegurança é tanta que eles passam a mandar na casa, mesmo que sejam pequenos e incapazes de decidir sobre a vida. Crescem pensando que sua vontade é lei e, ao mesmo tempo, sentem que as decisões são muito pesadas.
Posso arriscar a dizer que esses filhos – em geral, os “meninos” – nem sempre amadurecem. Digo “meninos” porque, algumas mulheres, consideram que os meninos, mesmo pequenos, são os “homens” da casa. É uma postura relacionada à tradição indígena, que conta os homens e desconsidera as mulheres.
Dona Dinorá ficou viúva. Tinha grande admiração pelo marido, fazia tudo o que ele pedia. Era ele quem dava as coordenadas na educação dos filhos. Havia estudado mais do que ela. Sabia como resolver tudo! Se as crianças desobedecessem, era só lembrar-lhes do pai que tudo voltava à santa paz.
Agora viúva, esperava que alguém pusesse limites que ela não conseguia. Na sua cabeça, o filho pequeno poderia assumir essa tarefa. Mas Juquinha tinha só 10 anos. Por isso, ele agia como podia, ou seja, primitivamente, resolvendo tudo no braço, no tapa. Dona Dinorá permitia que ele agisse assim. Como ela não tinha força, deixava que ele fizesse do jeito dele, desde que não tivesse de se confrontar com o problema.
Juquinha cresceu pensando que era assim que se resolviam as coisas. Batia na irmã por qualquer motivo: porque chegou tarde em casa; para ela nem “pensar” em transar; porque ele achava que ela estava namorando; porque não gostava do namorado dela. Por falta de argumentação, resolvia tudo na ameaça, na força, no tapa.
A irmã, Cleidinha, ficava desesperada: estava sob o julgo de um crápula e sua mãe não a defendia. Pelo contrário, jogava um contra o outro. Por isso, não via a hora de casar para sair do inferno em que sua vida se transformara. E tentava desesperadamente arranjar um marido, nem que tivesse de engravidar.
Ela reclamava, argumentava, gritava, mas ninguém a escutava. A mãe, irritada, ainda a xingava de nomes horríveis. A menina, então, não tendo apoio, aprendeu a mentir e dissimular.
Juquinha cresceu sem noção dos seus limites. Até que um dia, começou a namorar uma menina que, como ele, era menor de idade. Mas eles cresceram e Juquinha se tornou maior de idade, enquanto a namorada ainda era menor. Um dia, irritado porque ela havia decidido terminar o relacionamento, Juquinha a pegou pelo pescoço, jogou na parede, bateu e só não espancou mais porque ela saiu correndo. Foi feito o boletim de ocorrência.
O que acontece depois? Se a denúncia for levada adiante, Juquinha pode ser preso, fichado e se complicar muito. Como mora no mesmo bairro da ex-namorada, todos têm receio do que pode acontecer. Se ele for preso, avisou: na saída, mata a menina.
O que fazer? Depois que a Lei Maria da Penha[1] entrou em vigor, muitas mulheres deixaram de denunciar os companheiros por medo ou por achar que eles não podem ter a ficha suja.
Esse é um caso que eu não cuidei. A mãe não me ouviu. Achava que educar era na porrada. “Conversa não educa ninguém”, ela dizia. Ensinou isso aos filhos. Para ela, Cleidinha chorava por pouco e não prestava para nada.
Portanto, o peso cairá somente sobre Juquinha. Considero, contudo, que a mãe também deveria ser responsabilizada. E outras mães, assim como ela, deveriam ter acesso à informação para que esses casos pudessem ser evitados.
É preciso também ter penas alternativas e reeducativas e não somente punitivas. Punir simplesmente não muda a maneira de pensar, mas tratamentos podem mudar. A pena alternativa pode ser um trabalho na comunidade, onde as pessoas possam ver as conseqüências do ato de agredir. Ver o amigo trabalhando pode ser educativo. Mostra que ninguém escapa de atitudes como essas.
Não interessa ter mais um na cadeia, interessa que ele perceba o que fez e que não repita o comportamento. Importa que a atitude não fique impune.