BB: notícias de outro mundo

@Brigitte Bardot

por Mary Del Priore

Deslumbrante no filme “E Deus criou a mulher”, em entrevista recente a um jornalista suíço, revelou-se, contudo, uma niilista. Ela considera que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Seu ódio ao gênero humano é contrabalançado por seu apego aos animais. Inchada, enrugada, desprovida de todos os traços físicos que a consagraram, Bardot é o retrato da mulher que, depois de ter tido tudo, numa bandeja de ouro, optou por uma vida, segundo ela, “ridicularizada e rude”.

Perguntada se se sentia responsável pela revolução sexual dos anos 70, respondeu que não e que essa, pouco lhe importava. Godard, um gênio? Sim, “gênio de araque” que soube “entediar com jeitinho”. A beleza, no mercado: “está em vias de extinção – assim como certas espécies”. E explica: “em proveito da banalização, do consumo, da grana, do cimento, da degenerescência humana, dos liftings, das lipos e outros horrores, que o século XXI nos inflige. A quantidade matou a qualidade”. Sempre foi feminista? Resposta curta: “As mulheres que merecem, devem ter o lugar que merecem – as outras, já para a cozinha. Se comeria menos mal…”. Amores? Cada idade com os seus prazeres. Os dela “evoluíram com o tempo, esse escultor”. Bardot, uma libertina? “Nunca, mas uma apaixonada. Afinal, ao diabo com a avareza!”. Revê seus filmes, indaga o jornalista? “Não me revejo mais. Evito tudo o que seja o passado”. E o envelhecimento? “Aceito tudo o que é natural. É uma decomposição antes da hora. Não é engraçado, mas é assim.” Sobre sua relação com os animais, não economiza:

“Meu amor (pelos animais) faz de mim uma pessoa muito próxima da natureza, muito próxima do reino animal, que raciocina com o coração, seu instinto, suas revoltas sadias, uma pessoa infeliz de viver no mundo em que vivemos. Sou alguém que se protege dessa humanidade desumanizada, robotizada […] sinto-me mais próxima dos animais do que dos humanos, mas não tenho nem sua inteligência, nem sua coragem para viver num universo hostil”. Afinal, a humanidade lhe inspira “profundo desprezo” e se ela “pudesse se restringir ao estrito mínimo o planeta estaria salvo”. A gentileza? “Uma bobagem que ajuda a viver num mundo de brutos” e o “pé na bunda, indispensável para avançar na vida”.

Em 1964, BB esteve no Brasil, em Búzios, Rio de Janeiro. Fascinou os fãs. Anos depois, contudo, Tom Zé lhe dedicou uma música premonitória: A Brigitte Bardot está ficando velha, envelheceu antes dos nossos sonhos. Quando a gente era pequeno, pensava que quando crescesse, ia ser namorado da Brigitte Bardot, mas a Brigitte Bardot está ficando triste e sozinha. Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar, na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar?

Dá no que pensar, não?

Mary Del Priore, historiadora e sócia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Publicou Histórias íntimas, Planeta do Brasil, 2011, Uma Breve História do Brasil, Planeta do Brasil, 2010, Fazendas do Império, Ediora Fadel, 2010, História do Esporte no Brasil – do Império aos dias atuais. Unesp, 2009, Ao sul do corpo. Unesp, 2009, Corpo a corpo com a mulher. Senac, 2009, Matar para não morrer. Objetiva, 2009, Condessa de Barral. Objetiva, 2008, O príncipe maldito. Objetiva, 2007, Cachaça – alquimia brasileira. 19 Design, 2006, Uma história da vida rural no Brasil.Ediouro, 2006, História do amor no Brasil. Contexto, 2005, História das mulheres no Brasil. Contexto, 2004, Livro de ouro da História do Brasil. Ediouro, 2004, Ancestrais. Campus, 2003, O mal sobre a terra. Topbooks, 2003, Os senhores dos rios. Campus, 2003, Festas e utopias no Brasil Colonial. Brasiliense, 2002, Histórias do cotidiano. Contexto, 2001, Esquecidos por Deus. Companhia das Letras, 2000, Família no Brasil Colonial. Editora Moderna, 2000, Mulheres no Brasil Colonial. Contexto, 2000, Revisão do paraíso. Campus BB, 2000, 500 anos de Brasil. Editora Scipione, 1999, História das crianças no Brasil. Contexto, 1999, Monstros e monstrengos do Brasil. Companhia das Letras, 1998, A ordem dos livros. UNB, 1998, O Canibal. UNB, 1997, Religião e religiosidade no Brasil Colonial. Editora Ática, 1997, Documentos de História do Brasil. Editora Scipione, 1996 e A mulher na História do Brasil. Contexto, 1994




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