Bento

Henrique Schneider
Os olhos de Bento procuram o fim daquela imensidão lisa, mas não conseguem encontrá-lo: o pampa é um mar sem água e as coxilhas, suas delicadas ondas. Vez por outra, ao longe, um breve emaranhado de árvores, apenas para emprestar à enormidade daquele verde um ou outro pintalgado mais escuro. É muita a terra, e muito bela, e misteriosa, ele pensa enquanto cavalga em frente a um grupo silencioso.
O silêncio.
Bento sempre achou que o pampa, mais que simples paisagem, está incrustrado na alma do gaúcho. Este ser ensimesmado, calado, pensador, cujos olhos costumam falar mais que as frases. Porque é assim: tanta grandeza, tanto céu sobre tanto campo, uma casinha ou outra perdida na paisagem – não há outra chance que não a da solidão.
E foram estes solitários silenciosos que, tendo à frente um centauro chamado Netto, haviam proclamado não faz muito a República Riograndense. Agora, ano e pouco depois, e mesmo que não o queira, Bento é o presidente desta República. Ainda que cada um tenha os seus próprios motivos para estar hoje nesta luta, e alguns nem isso, a verdade é que os homens que o acompanham seriam capazes de dar a vida por ele, ou por esta idéia – muitos já o fizeram, e seu coração amargurado sente isso. Esta alma de pampa, esta coragem desabrida, este sapucay a quebrar com força o silêncio imperioso que antecede a batalha: tantos que morreram sem saber porquê. Só sabiam que lutavam pelo general Bento Gonçalves.
Bento contempla o campo enquanto cavalga, pensativo. Como reunir tantas vontades, ideais, sonhos e – ainda que não lhe agrade pensar assim – tantos interesses? Para onde esta República? Tantas perguntas e incertezas: estas muitas vidas em suas mãos não são um poder que deseje.
Olha para trás e o que vê é esta massa de homens às suas ordens. Adiante, este verde de não acabar mais.
Só pode ir em frente, pensa, sem duvidar. O tempo terá a resposta para suas perguntas.




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