Bisneta da condessa

O Globo / Data: 20/12/2008

Descendente da mulher que foi a paixão de D. Pedro II fala das cartas que os amantes trocavam

Amantes de reis e imperadores rendem sempre ótimos livros. Disputa pela atenção, cenas de conquista e tráfico de influências originam histórias deliciosas. Mas esses casos de amor muitas vezes também constrangem — sobretudo quando os envolvidos têm filhos. Foi o que ocorreu com a família da condessa de Barral, a mulher por quem D. Pedro II derramou amor e admiração.

O romance entre os dois foi por muito tempo banido das conversas da família Barral, como se fosse inverossímil, conta a bisneta da condessa, Jeanne Marie Françoise de Barral Fernandes, de 76 anos, que mora no Flamengo e guarda tesouros como cartas escritas no século XIX por sua bisavó. “Nestas cartas, tem-se apenas uma pequena amostra do que foi o amor que compartilharam durante 34 anos”, descreve a historiadora Mary del Priore, no recém-lançado Condessa de Barral — a paixão do imperador (Objetiva).

— Não se falava do romance deles na família. Falava-se muito da amizade das duas famílias, a Real e os Barral. Meu pai encontrou as cartas de D. Pedro II amarradas por uma fita azul. Mas não conseguíamos decifrar porque a letra dele era ininteligível — conta Jeanne.

Foi graças ao livro de Mary del Priore que os descendentes da condessa se reconciliaram com o romance proibido vivido pela matriarca. A obra traça o perfil da forte Luísa Margarida Portugal e Barros, a mentora das filhas do imperador, que aos poucos conquistou D. Pedro II, com quem se correspondeu por décadas. Correspondência que, aliás, pavimentou a biografia.

— Nunca gostei como essa história era tratada. Fiquei grata a Mary porque ela abordou o assunto de forma delicada, com um olhar sensível. Não posso negar que houve algo — diz Jeanne. — Graças a Mary, aceitei, compreendi e amei essa história de amor. Aí, me redimi.

As cartas traziam não só sentimentos mas também opiniões, informações e uma deliciosa crônica do século XIX narrada pela irônica Luísa, que é definida como uma mulher culta e sempre à frente do seu tempo.

— A Barral era moderna, formidável. Ela alforriou os escravos da fazenda da família — diz a bisneta.

Quando conheceu D. Pedro II, Luísa tinha 40 anos, nove a mais que ele. Era casada e tinha um único filho, Dominique (avô de Jeanne). Ela entrou na corte para ser aia das princesas Isabel e Leopoldina, a quem ensinou não só etiqueta mas também idéias abolicionistas. Segundo o livro, foi a condessa quem sugeriu a libertação dos escravos para a Princesa Isabel. E ela teria também arranjado o casamento entre Isabel e o Conde D’Eu.

Era comum o imperador dar uma espiada nas aulas das princesas. Da proximidade com a professora, Luísa, nasceu primeiro a admiração. Mais tarde, o romance, que tinha um código próprio. Como descreve Mary em “Condessa de Barral”: “O desejo também consistia em pisadelas. Pisar, com delicadeza, o pé da amada era manifestação de adoração completa. Quem revelou, sem querer, a bolina dos pés foram as princesas. Leopoldina, que tinha apenas 10 anos, perguntou à Imperatriz: ‘Mamãe, por que durante as lições papai pisa no pé da condessa?’”.

Nascida em Salvador e criada em Paris pelo pai, o Visconde de Pedra Branca, Luísa conquistou Pedro II com seu bom senso. E passou a influenciar suas decisões.

— Ela era amada ou odiada. Charges diziam que para se conseguir algo era preciso passar antes na ante-sala da Barral — diverte-se Jeanne, que conserva relíquias da bisavó, como o colar em que Luísa guardava um chumaço do cabelo do neto (Jean, pai de Jeanne).




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