Henrique Schneider
Hugo era um sorriso só e a condição invencível de brincalhão já lhe havia custado alguns problemas. Com ele o ditado virava verdade: perdia o amigo, mas não a piada. Era maior, mais forte que ele: quando percebia, já estava fazendo o comentário, a brincadeira. Nem sempre na hora ou na ocasião certas. Mas os amigos não deixavam de reconhecer que a companhia de Hugo era sempre uma festa.
Por isso, quando ele apareceu namorando a Zelinha, todo mundo estranhou: se havia alguém sério, era esta moça. Não ria de nada e nem para ninguém, a vida para ela era toda compromisso, objetividade. Ninguém mais distante das piadinhas do Hugo. Ele justificando, sempre o sorriso:
“É que os opostos se atraem.”
Tanto é assim que agora estão ambos no altar, casando numa elegância só, e enquanto os amigos dela acham que Zelinha enlouqueceu, os amigos dele ainda não acreditam e esperam alguma brincadeira de uma hora para outra: Hugo nunca respeitou ocasiões solenes.
O que eles não sabem é que Zelinha lhe recomendou muito bem que se comporte nesta noite. E ele, pensando em seguir as ordens dela, começar com o pé direito este casamento.
Mas quando o padre perguntou a Hugo se ele aceitava Zelinha como sua legítima esposa, a igreja inteira emudeceu em suspenso. Ele notou aquele silêncio, e mais: percebeu que todos esperavam alguma brincadeira. Não poderia desapontar todo aquele público – era mesmo mais forte do que ele.
“Aceita?” – insiste o padre a aquele noivo cujo olhar parece atravessá-lo.
“Só uma dose.” – responde Hugo.
Metade da igreja se escandaliza, a outra metade ri aliviada: a essência de Hugo está mantida. Zelinha, solitária em sua raiva súbita, belisca a mão do noivo e o olha com nenhuma ternura neste momento que devia ser único, e já começa a se perguntar se casar com aquele doido não é mesmo um erro. (adv.henrique@uol.com.br)