Brinquedos agressivos

por Dora Lorch

Muitas vezes os pais e educadores querem saber se é aconselhável comprar brinquedos considerados agressivos como revólveres de brinquedo e coisas do tipo, por isso quero analisar esta questão com cuidado.

Primeiro é bom lembrar que todas as crianças apresentam sentimentos e comportamentos agressivos, que são inerentes ao ser humano e se prestam à preservação da espécie. Podemos citar aqui para quem se interessar o livro Agressão de Konrad Lorenz que era biólogo e estudou a importância da agressão para várias espécies e mostra que a agressividade está presente em ações tão sublimes como amar. Explicando melhor, sem uma certa dose de agressividade o ato sexual não seria consumado. Sem agressividade não enfrentaríamos os problemas do cotidiano, não lutaríamos pela vida.

Isso posto, fica fácil perceber que todas as crianças tem uma certa dose de agressividade que precisa ser extravasada, e dar brinquedos que se ajustem a esta finalidade pode ser considerado permissão para extravazá-la.

Outra coisa, não dar “arma” para crianças não inibe em nada sua agressividade. Moral da história: o problema não é o brinquedo em si e sim como ele será usado.

Sabemos que em época de guerra as crianças reproduzem estes horrores nas brincadeiras – até recentemente saiu uma reportagem que as crianças em Israel brincam de palestinos e israelitas e os árabes não querem mais ser palestinos porque acham que eles sempre perdem… É como nossa brincadeira de polícia e ladrão: quem é que ganha de verdade esta briga? Quem as crianças querem ser – na classe média , e na favela…

Então segundo Betelheim o problema é permitir que a criança brinque com brinquedos considerados agressivos, mas os adultos não devem fazer parte destas brincadeiras, nem achar engraçado quando por exemplo uma arma é apontada para ele mesmo que de brincadeira, já que o que está em jogo são as fantasias destrutivas das crianças. Ele sugere que a criança seja levada a sério e mostrado para ela que a “morte” do pai, por exemplo, pode acarretar faltas graves para a criança em particular. E claro que qualquer pequeno sabe da sua dependência para com seus pais.

Outra coisa, reagir agredindo de volta não ajuda a criança aprender a controlar sua raiva – pelo contrário é como se a incentivasse a explodir. Claro que todo mundo explode lá às tantas e isso não causa problema, mostra que os adultos são humanos, falíveis e que a criança pode também errar sem tanta culpa, mas isso torna-se um problema se o erro ou a explosão de sentimentos for constante.

Mas o pior é a projeção que os pais fazem frente a um ato dos filhos, achando que aquele comportamento é prenúncio de alguma coisa maior talvez pior: olha nenhuma criança vai ser engenheiro porque monta cubos e nenhuma criança vai ser violenta porque brinca com armas.

Bibliografia usada e recomendada
1) Badinter , Elisabeth – O Mito do amor materno –Ed. Nova Fronteira
2) Betelheim, Bruno – Uma vida para seu filho – Ed. Campus
3) Betelheim, Bruno – Diálogo com as Mães – Ed. Agir
4) Klein, Melanie – A criança e o brincar – Ed Imago
5) Winicot – O Brincar e a realidade – Ed. Imago




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