por Dora Lorch
Separação de casais, especialmente quando há filhos envolvidos é um problema. Primeiro, porque se as divergências entre duas pessoas é tão grande que causou a separação, quando afastadas as diferenças tendem a aumentar, acrescidas de mágoas e ressentimentos (re- sentimentos: ficar sentindo muitas vezes o que já passou). Mesmo separados é frequente continuar a disputa para descobrir quem está certo e quem está errado.
Nestes casos, os filhos passam a ser uma arma poderosa nas mãos de certos pais. O “jogo” vai desde culpar o outro pela separação, intensificar seus defeitos, acrescentar alguns novos, culpar a separação pela falta de bens materiais. Visa colocar o filho contra um dos pais, ou usar as crianças como desculpa para conseguir o que se quer. Claro que um mesmo salário não pode manter duas casas no mesmo nível que antes. Portanto, colocar a culpa no ex-pai, que agora não liga mais para as necessidades dos filhos é fácil.
O pai apartado (hoje em dia há homens com a guarda dos filhos) não participa do dia-a-dia como antes e se esquece que os filhos crescem independente do aumento do salário e tem necessidades imperativas: precisam de sapato novo porque o antigo não serve mais no pé, precisam de dinheiro para o antibiótico, precisam de agasalho porque o antigo não cabe e faz frio. Não interessa se acabou o dinheiro da pensão. Claro que na convivência os pais vão dando um jeito de contornar estas intempéries, mas quando os olhos não vêem parecer que o coração esquece.
Por outro lado, quando o ex perder o emprego, ou diminuir o ganho mensal, não adianta querer que ele lhe pague o que pagava antes. Numa família (e mesmo separados estas são relações familiares) estes movimentos precisam ser acomodados.
Isso não dá o direito de falar mal do parceiro, afinal os pais se escolhem antes dos filhos nascerem, e por isso cada um aguente a sua responsabilidade, “cada um no seu quadrado”. Inclusive porque os filhos fazem parte deste casal, e falar mau de um dos pais é falar mau de parte desta criança.
Anita era uma mulher voluntariosa. Tudo que ela queria, amolava o marido até conseguir. Isto é, enquanto era casada, porque teve um dia que o marido cansou. E o casal se separou.
Se durante o tempo de casamento quando um quer agradar o outro porque ama, eles não conseguiram se entender, depois de separados a coisa acirrou. Então, o ex-marido tentou conversar sobre a limitação do seu salário. Em vão. Como nossos filhos vão viver sem as mordomias que estão acostumados?
Para piorar, o ex começou a namorar uma moça mais nova, linda e magra! Que desaforo! As coisas foram indo até que um belo dia Anita descobriu que tinha muito pouco dinheiro, e que a culpa, certamente era do ex. Possessa porque tinha certeza que ele tinha muito e não lhe dava quase nada, possessa porque não conseguia mais atingi-lo com suas insistências, pegou seu carro e ficou esperando na rua. Mau o ex-marido despontou chegando do trabalho, Anita foi para cima dele com carro e tudo. Moral da história, ambos os carros amassados. Marido surpreso, ex-mulher vingada.
Foi nestes termos que conheci Anita no Florescer da Fábrica. Sua postura mostrava que ela não sabia lidar com as limitações que a vida lhe impunha. Muito menos conseguia compreender que o ex-marido não via o mundo da mesma maneira que ela. Mas uma coisa me chamou a atenção: a maneira dela agir. No que será que ela pensou para reagir desta maneira?
Conversando, descobri que o marido havia atrasado o pagamento da pensão e ela achara que isso era uma desconsideração. Também achava que agora que ele tinha outra, não queria mais pagar a pensão para os filhos.
Depois de ouvir seus argumentos, declarei:
— Jeito bobo de resgir, né?
Anita surpresa perguntou: — Bobo porquê?
— Porque você conseguiu exatamente o oposto do que queria. Ao invés de boa vontade, ele vai ter todos os motivos para não te pagar, ou pior do que isso, cobrar os estragos que você causou. O que foi que você conseguiu com isso?
Anita desconversou, depois ficou pensativa. Voltou mais uma vez para contar que tinha conseguido conversar com o ex-marido e negociar as visitas, férias e o pagamento do material escolar.
Por para fora tudo o que sente sem censura é coisa de criança bem pequena. Adultos pensam antes de falar ou agir. Querer as coisas a qualquer custo, também é coisa de criança; adultos aprendem a lidar com as limitações que a vida impõe.
Dizer o que pensa não quer dizer falta de educação, ou sair batendo no carro dos outros; implica em falar a verdade, mas de maneira a sermos ouvidos. Requer sensibilidade e empatia para percebermos como o outro vai se sentir.
O ideal é irmos falando das coisas na medida que elas nos incomodem. Muito antes de ficarmos tão irritados que não há mais possibilidade de conciliação ou aonde ceder. Muito antes de perdemos a paciência e a razão.
Quem engole muito, é quem explode mais.