Henrique Schneider
A fotografia da conversa entre Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato não é a única relíquia do Café Plaza Dorrego, mas para Germano era a mais importante. Há outras tantas preciosidades: as mesas e cadeiras calcadas pelos tantos anos, o piso gasto em cafés, as cascas de amendoim meio espalhadas pelo assoalho, a doce confusão, o ar cheio de histórias que se respira lá dentro. Mas, para Germano em sua vida escritora, nada que se compare à foto de Borges e Sábato, sentados ambos ali, conversando silêncios e colocando a limpo assuntos que os uniam e separavam.
Então que Germano decidiu: precisava escrever um conto ali mesmo, sentado à mesa logo abaixo da fotografia, sob a inspiração próxima dos dois mestres. Seria o melhor de todos que havia escrito, certamente, aquele com o qual seria mais lembrado e aplaudido. Um conto escrito num centenário café buenairense, sob os auspícios severos de Borges e Sábato: o conto.
Sentou-se, tirou papel e caneta da mochila, pediu um café expresso e começou a escrever. Ninguém prestou nele maior atenção: centenas de escritores têm a mesma idéia, todos os anos, pensando ser os primeiros. Os garçons já estão acostumados a estes loucos tranqüilos que deixam esfriar o café enquanto dormem o transe do conto perfeito.
Mas este conto só é possível para Borges. Ou Sábato.
Germano escrevia rápido e, de quando em quando, olhava para a fotografia pendurada na parede escura, luminosidade medida refletida na mesa em que, copos de água à frente, sucedendo o café consumido, conversavam os dois mestres. Mas o que conversariam? – pensou Germano, tensão de repente.
Olha outra vez a fotografia, preocupado. Sábato, mais agressivo, cotovelo esquerdo e mão direita apoiados na mesa, parece criticar o conto que mais este escritor escreve logo ali abaixo, a petulância, como se o talento tivesse a chance de transferir-se da fotografia. Borges, sério em sua cegueira, apenas segura a mesa para certificar-se que ela está lá, e, aos olhos de Germano, concorda com a crítica de Sábato.
Mas o que é que eu estou fazendo, pensa Germano, súbito. Que bobagem piegas é esta? Onde estão estes dois, ninguém mais deve escrever: é um pouco como invadir um templo sagrado, envergonha-se.
E guarda na mochila o texto ainda no início, as folhas de papel em branco, a caneta. Outra hora vou escrevê-lo, pensa – quando já seja eu mesmo, simples, a fazê-lo.
Só encorajou-se a pegar o conto novamente uns dois dias depois, quando – pensou – já estava liberto do olhar de Sábato, do fantasma de Borges.
Tão liberto que o conto ficou muito ruim.