Não era uma casa de tangos, mas um restaurante comum. E o bairro era o Boedo, nada de Recoleta ou Puerto Madero. Ou seja: almoçávamos numa Buenos Aires mais portenha do que turística,e a impressão que tínhamos, Berenice e eu, era que talvez fôssemos os únicos clientes de quem os garçons não sabiam o nome (não era assim, mas tínhamos a impressão). Os clientes eram vizinhos, o pessoal do bairro e seus conhecidos. Comíamos uma parrilla tão simples quanto bem servida e o vinho nos dava a sensação confortável de que poderíamos ficar por lá o tempo que quiséssemos, escutando as milongas, tangos e um ou outro chamamé que o cantor executava, sem pressa, acompanhado de um violão e do acordeonista. A felicidade, pensávamos, pode ser simples.
Quando o homem levantou-se da mesa ao lado e pediu ao cantor que o deixasse interpretar algo, este concordou com certa má vontade. O homem era um petiço, o cabelo negro e escorrido, paletó cuidado em anos, e talvez – pensamos nós – a expressão contrafeita do cantor fosse porque já o conhecesse.
Mas quando o homem começou a cantar, soubemos que não era (talvez fosse despeito). Naquele instante, o restaurante pareceu deixar de existir; existia apenas aquele pequenino cantando. A voz era uma cascata forte. Mas não era aquilo, não era a voz o que encantava tanto: era algo inexplicável, algo que os maus escritores definiriam como magia e que eu, à falta de melhor palavra, simplesmente não tentava explicar. O restaurante todo em suspenso, enquanto o homenzinho cantava os seus tangos como de deles dependesse a vida – ou, mais ainda, a vida trágica da mulher amada. Alguém que cante um tango como se daquilo dependesse a vida é alguém que merece respeito. Fechei os olhos para melhor escutá-lo. Ao redor, nada mais se ouvia; parecia que até os garçons haviam suspendido por um momento a sua faina, em homenagem muda àquela emoção.
Quando consegui abrir os olhos, percebi que, à minha frente, Berenice chorava.
O homenzinho cantou ainda mais dois tangos. Um deles eu conhecia: “Garganta con arena”, uma homenagem ao polaco Goyeneche. “Ya ves”, dizia o tango, “a mi y a Buenos Aires/nos falta siempre el aire/cuando no está tu voz”. Era como eu me sentia naquela hora. Vontade de que não terminasse. Desejo do tempo não passar. Ou de outra canção.
Ele terminou de cantar e eu esperei que os aplausos não acabassem nunca, mas eles foram rápidos – talvez apenas eu e Berenice ainda não estivéssemos acostumados ao prodígio daquela voz desconhecida. Mas nós não: desabridos nesta admiração nova, não nos importamos em permanecer aplaudindo sozinhos, enquanto os outros já voltavam aos seus entrecotes e os garçons retomavam suas corridas.
O homenzinho voltou à mesa como se nunca houvesse cantado e a mulher serviu-lhe um copo agradecido de vinho. Quando olhou para nós, sem perceber, Berenice e eu o saudamos. Ele sorriu e tomou um gole de vinho